Infância

Infância

terça-feira, 16 de junho de 2026

Apenas uma questão de tempo

            




Caro Dílson Lages, 

Haverá de chegar o efêmero instante em que o instante seguinte aniquilará o instante anterior em uma bola de névoa sem fim.

Por fim: início e chegada confundem-se feito sinônimos de mim. Eu que não fui. E sou.

E sendo, desfaço-me.

Cada passo que inaugura um caminho enterra outro sob a poeira dos possíveis. Carrego nos bolsos as ruínas de todos os homens que poderia ter sido. Alguns ainda respiram baixinho entre as costuras do tempo; outros jazem esquecidos em fotografias que jamais foram tiradas.

Há uma estranha ternura naquilo que desaparece.

As tardes, por exemplo, não terminam. Apenas se escondem atrás de um horizonte inventado pelos olhos. O rio não corre. É a margem que se despede. As folhas não caem. É o vento que perde a memória.

Talvez a vida seja isso: um lento exercício de esquecimento. Uma sucessão de despedidas tão pequenas que aprendemos a chamá-las de rotina.

Ontem mesmo eu habitava um corpo que já não me reconhece. Amanhã, outro nome há de vestir minha sombra. E entre ambos, neste estreito corredor onde o presente respira ofegante, permaneço suspenso como uma pergunta que desconhece a própria resposta.

Nada permanece.

Nem mesmo a ausência.

Porque até o vazio se transforma quando o observamos por tempo suficiente.

E assim sigo, colecionando instantes condenados ao desaparecimento, como quem recolhe conchas numa praia destinada à maré. Sabendo que o oceano voltará para reclamar o que sempre lhe pertenceu.

No fim, se é que existe um fim, restará apenas o movimento. Essa dança silenciosa entre o que nasce e o que deixa de ser. Esse perpétuo desfazer-se que chamamos existência.

E então compreenderei que nunca caminhei em direção ao tempo.

Era o tempo que caminhava através de mim.

 

Caxias-MA, 04 de junho de 2026, às 18h46