Infância

Infância

quarta-feira, 17 de junho de 2026

A soma de todos os ossos




Caro Washington Ramos,

Em 2026 despedaço-me em 51 capítulos.

Se estive inteiro um dia, foi bem antes dos primeiros instantes de 1975.

Enquanto prisioneiro do passado assustadíssimo com as (im)possibilidades futuras não suporto encarar o presente que se apresenta, vívido momento, que se pressente prescindível de mim.

Há dias em que suspeito que existir não seja senão este exercício exaustivo de comparecer atrasado ao próprio tempo. Quando chego ao ontem, ele já se fez ruína; quando me inclino ao amanhã, descubro tratar-se apenas de um espelho opaco devolvendo o contorno mal resolvido dos meus receios.

O agora, esse animal indomável, não se deixa tocar. Aproximo-me dele e já se fez memória. Nomeio-o e imediatamente deixa de ser. Talvez por isso eu escreva: para fingir permanência; para produzir em papel a ilusão de que os instantes obedecem a alguma ordem e não ao ímpeto selvagem de desaparecer.

Cada um dos 51 capítulos não é propriamente um ano, mas uma tentativa de tradução. Traduzo perdas em escolhas. Traduzo ausências em maturidade. Traduzo o que não compreendi em filosofia barata e o que compreendi em silêncio.

Recordo-me menos dos fatos que das atmosferas: a quentura das madrugadas, o cheiro dos lugares que já não existem, as palavras que disseram menos do que escondiam. Descobri tarde que a memória não arquiva acontecimentos, reescreve-os. E eu, leitor involuntário de mim mesmo, insisto em acreditar na versão mais literária dos fatos: não envelheço, acumulo versões.

Há em mim um homem que ainda espera o que já aconteceu e outro que lamenta o que jamais virá. Entre ambos, sobrevive este que escreve, espécie de mediador cansado entre aquilo que fui incapaz de viver e aquilo que continuo incapaz de abandonar.

Talvez o presente, impaciente, apenas não me espere. Então sigo, recolhendo pedaços, numerando outonos, convencendo-me de que capítulo não é sinônimo de fragmento, mas de continuidade interrompida.

 

Teresina-PI, 17 de junho de 2026, às 11h17

terça-feira, 16 de junho de 2026

Apenas uma questão de tempo

            




Caro Dílson Lages, 

Haverá de chegar o efêmero instante em que o instante seguinte aniquilará o instante anterior em uma bola de névoa sem fim.

Por fim: início e chegada confundem-se feito sinônimos de mim. Eu que não fui. E sou.

E sendo, desfaço-me.

Cada passo que inaugura um caminho enterra outro sob a poeira dos possíveis. Carrego nos bolsos as ruínas de todos os homens que poderia ter sido. Alguns ainda respiram baixinho entre as costuras do tempo; outros jazem esquecidos em fotografias que jamais foram tiradas.

Há uma estranha ternura naquilo que desaparece.

As tardes, por exemplo, não terminam. Apenas se escondem atrás de um horizonte inventado pelos olhos. O rio não corre. É a margem que se despede. As folhas não caem. É o vento que perde a memória.

Talvez a vida seja isso: um lento exercício de esquecimento. Uma sucessão de despedidas tão pequenas que aprendemos a chamá-las de rotina.

Ontem mesmo eu habitava um corpo que já não me reconhece. Amanhã, outro nome há de vestir minha sombra. E entre ambos, neste estreito corredor onde o presente respira ofegante, permaneço suspenso como uma pergunta que desconhece a própria resposta.

Nada permanece.

Nem mesmo a ausência.

Porque até o vazio se transforma quando o observamos por tempo suficiente.

E assim sigo, colecionando instantes condenados ao desaparecimento, como quem recolhe conchas numa praia destinada à maré. Sabendo que o oceano voltará para reclamar o que sempre lhe pertenceu.

No fim, se é que existe um fim, restará apenas o movimento. Essa dança silenciosa entre o que nasce e o que deixa de ser. Esse perpétuo desfazer-se que chamamos existência.

E então compreenderei que nunca caminhei em direção ao tempo.

Era o tempo que caminhava através de mim.

 

Caxias-MA, 04 de junho de 2026, às 18h46

 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Profano

Perdidos
Pedidos 
Pendulares
De perdão

Persistem
Permitem
Perscrutam
Incansáveis

Pútridos
Pruridos
Pensamentos
De pecado.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Samsara

 



Anuar Daher tornou possível a realização de um sonho quando abriu as portas da sua casa para a minha família. 

Mal sabia ele, não era afeito a agradecimentos, a imensa transformação que proporcionara em nossas vidas.

Sou até capaz de ouvi-lo, a voz inconfundível, interrompendo a escritura deste texto:

"Para com isso, professor! Estou atrás de valores humanos, concorda?"

Como discordar? Ali, diante de mim, encontrava-se um homem inteligente, forte, teimoso, desbravador, que não reprimia as lágrimas quando, emocionado, revisitava o passado, com os pés firmes no presente, vislumbrando conquistas futuras. 

Descanse provisoriamente, meu amigo, "junto ao mar encantado do Piauí". 

terça-feira, 25 de março de 2025

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

A Vida Contida

A

José Afonso de Araújo Lima


20h05
Teatro vazio. Contração facial. Dentes triturando dentes. Língua pressionada
contra a abóbada palatina.
Teatro vazio. Taquicardia. Sangue cavalgando velozmente em sentido contrário,
dos ventrículos para os átrios. Câmaras cardíacas contraindo-se e se dilatando,
alternadamente, 140 vezes por minuto.
Teatro vazio. Cefaleia. Trombose venal. Prodigiosa pressão intracraniana.
Sombras, tal qual fantasmas, invadindo o palco. Braços e pernas indolentes. Inchaço
cerebral. Sangue umedecendo o subaracnóide.
Teatro vazio. Onde a família? Onde os amigos? Onde o burburinho de quando
rebenta a fatídica notícia? Onde o vinho de outrora? Onde os cupins em guerra? Onde o
itararé dos desvalidos?
Teatro vazio. Pedro II banhada em estranha substância aquosa alcalina. Quatro
de setembro maçante. O badaladal de São Benedito é presságio. Há uma tintura preta
anuviando a escola de Gomes Campos. De um extraordinário mastro de cocanha
principia uma lona encarnada. Ao meio-dia é toda a gente vermelha. De uma
vermelhidão sobrenatural. Um deslumbramento só. Teresina tenebrosa.
Teatro Vazio. Os refletores não ardem. Proscênio precipício. No auditório, aos
pares, criaturas xipófagas protagonizam o maravilhoso descuido da criação. Quem
parasita de quem? Aleijados, estropiados de toda natureza de imperfeição, amaldiçoam
as negligências do criador.
Teatro vazio. As águas do Parnaíba invadem o camarim principal. A maquiagem
rubra agora é sangue esquivo – avançando violentamente. Em poucos minutos, umidade
em todas os catinhos do complexo cultural.
Teatro vazio. Aeroporto interditado. Magníficas nuvens derramadeiras repousam,
há sete horas, sobre a pista de rolamento. Entre um clarão e outro a excêntrica ausência
de trovão.
Teatro vazio. Cidade vazia. A gente vazia. Cristais de gelo oprimem o Troca-
troca. A prefeitura, engolida por uma cratera, é apenas vestígio. Na Praça Marechal
Deodoro da Fonseca há uma bandeira diáfana e tímida desafiando a inexistência de Zéfiro. O marco zero, cravado por Saraiva em 1850, assiste ao espetáculo de sons, cores,
perfumes e dor. Prostitutas, sibilas e mendigos amaldiçoam Nossa Senhora do Amparo.

21h04
Hospital Getúlio Vargas. Lamentações. Súplicas. Aflição. O pesadelo é
substituído pelo pesadelo. Jeosá desmaiara nos primeiros minutos do espetáculo. Meses
de ensaio. Correria-correria danada. Despertara na enfermaria. De instante em instante
recebia a visita de uma sombra. Um gigante quietinho diante da cama. Sentia-lhe as
mãos passeando pelo corpo. A angústia, substituída pelo prazer, era drenada pela
criatura. Por mais que se esforçasse, tornava-se impossível para o artista identificar o
benfeitor. O borrão de gente entrava e saía do quarto quando bem entendia. Nenhuma
palavra. Apenas o toque generoso. A calmaria que o acompanhava sempre.
Naqueles momentos lembrava-se de sua primeira visita ao Teatro do Boi.
Assistira, na ocasião, ao espetáculo A Guerra dos Cupins. Antigo matadouro municipal,
o prédio fora construído em 1928. Anfrísio Lobão era o prefeito de Teresina, na época.
A carnificina substituída, 59 anos depois, por oficinas, cursos e apresentações das mais
diversas manifestações artísticas, ainda nos envolvia a todos, enquanto apanhadores do
sangue e da dor de tantos bichos sacrificados ali.
Estreara, aos 16 anos, naquele palco italiano. 34 espectadores dispersos no
auditório. A capacidade era para 160 pessoas. Shakespeare não era muito cultuado na
zona norte. Flamengo versus River em vez de Hamlet, o príncipe dinamarquês. "Tem
cuidado em não entrar em uma briga, mas uma vez nela, faze tudo para que teu
adversário sinta temor". Naquela noite enfrentamos o futebol. Perdemos feio. “Ser ou
não ser... Eis a questão”. Logo na primeira cena, do terceiro ato, o Flamengo decidiu a
partida. O dramaturgo inglês abatido por sinais eletromagnéticos decodificados pelo
receptor de um quadragenário rádio capelinha. Quando Zé Libório, vigia do
estabelecimento teatral, como ele mesmo gostava de ser chamado, anunciou a gojoba, a
plateia, desanimada e abatida, renasceu aos berros de é gol, é gol. "O resto é Silêncio".

22h03
Xerostomia. Queimação na boca. Lábios rachados. Língua áspera. Náusea.
Desequilíbrio. Vertigem. Atordoamento. Hipotensão ortostática. Escuridão.
Jeosá nasceu na Arlindo Nogueira. Pertinho da Miguel Rosa. Tiradentes,
Clodoaldo Freitas, Campos Sales, Arêa Leão, Benjamim Constant e Anísio de Abreu foram testemunhas de inúmeras traquinagens. Pega-pega. Pau de bosta. Polícia e ladrão.
Caveira. Bandeira. Queima. Esconde-esconde.
Aos 12 anos, interessou-se pelo cinema. Os amigos reuniam-se, aos sábados, na
casa de Denílson. Patinha, assim era conhecido o filho do deputado, ganhara
recentemente um videocassete. Cinco meses depois, financiados pelo dinheiro público,
já produziam os próprios vídeos. Os cenários eram sempre as praças da capital. João
Luís Ferreira. Pedro II. Rio Branco. Saraiva. Bandeira. Landri Sales. Da Costa e Silva.
Os enredos, uma trapalhada mambembe de filmes norte-americanos e europeus.
Dormência. Repouso. Quietação. Bradicardia. Incontinência urinária.
Incontinência fecal. Esfíncteres ineficientes. Uma fetidez danada. Um constrangimento
só. Excrementos encharcando a brancura dos lençóis.
No Teatro de Arena, Jeosá interpretou Crispim. Cabeça de Cuia. Protagonista de
O pescador e o rio, de Gomes Campos. O drama do menino pobre, incapaz de pescar
um peixe sequer, impressionava. O assassinato da própria mãe não justificava a
maldição. Parnaíba. Sete Marias virgens. Canoas emborcadas. Poti. O homem feito
monstro. Destruíra, fatalmente, a mãe-boa, inocente dos abusos da mãe-má.
O gigante tornara à cabeceira da cama. Mãos invisíveis massageavam os ombros
de Jeosá. O mau cheiro substituído pela combinação do aroma de todas as artes.
Finalmente a claridade atingira o corpo do ator. Onde anteriormente cortinas, agora luz.
Sentira-se renovado. Acreditara ser possível sentar-se. Até mesmo caminhar pelo quarto.
Quem sabe desbravar cada aposento do maior hospital público do Piauí.

23h02
Apenas um corredor. Levaria 59 minutos para percorrê-lo. E no corredor,
dispostas de forma assimétrica, sete portas. 106. 205. 304. 403. 502. 601. 700.
Ao aproximar-se do primeiro cômodo, uma quentura atingiu-lhe em cheio.
Distinguia gemidos e imprecações. Naquele quarto habitavam queimados de toda
espécie de danação.
Logo adiante, no 205, o silêncio era constrangedor. Gonorreia. Cancro duro.
Cancro mole. AIDS. Infecção por clamídia. Pediculose do púbis. Herpes genital.
O quarto 304, reservado para os suicidas, estava lacrado. Impossível visitá-los.
Consolá-los. O trinco fora arrancado. Os amaldiçoados agrediam, inutilmente, a madeira
maciça da porta. Havia grades nas janelas do 403. Homens e mulheres nus, amarrados uns aos
outros, debatiam-se insanos. As cabeças raspadas espelhavam o incômodo da posição.
Assaltantes. Assassinos. Estupradores. Corruptos. O humor aquoso produzido pelas
glândulas sudoríparas era uma expiação.
Os adúlteros aguardavam no quarto seguinte. Machos de um lado. Fêmeas do
outro. Genitálias trucidadas. Bocas costuradas. Olhos esbugalhados. Encaravam,
atônitos, o sofrimento alheio. Resignação.
Há alguns metros do 601, uma surpresa. Bloqueando o corredor havia um padre.
O religioso segurava com a mão direita a própria cabeça. Desligada do restante do corpo,
a cabeçorra fitava o jovem artista. Aterrorizado, tamanha era a serenidade de Jeosá, o
presbítero recuou, para logo em seguida desaparecer.
Os dois últimos quartos abrigavam mentirosos e invejosos. Assim mesmo
confundidos. Difícil identificar quem era quem. Esfaqueados, despejavam sangue por
onde passavam. Ocupavam-se em lambuzar o rosto e o corpo dos companheiros. Sequer
perceberam a presença do ator.

00h00
Jeosá não resistiu ao acidente vascular cerebral. A ruptura de um vaso sanguíneo
intracraniano matou-o três horas e 55 minutos após o desmaio. Mal tivera tempo de ser
examinado. Deixara no Teatro João Paulo II, uma plateia assustada. Não pagaram para
assistir ao espetáculo da morte de um ator. Alguns ainda permaneceram na calçada do
teatro. Aguardavam notícias. Muitos, acompanhando o elenco, lotaram o saguão do
HUT. Encaminhado para o Getúlio Vargas, Jeosá vagou inconsciente pelos traumas e
medos e frustrações que acompanham a humanidade. Encaminhado para o Getúlio
Vargas, Jeosá conheceu um pouquinho do Céu e do Inferno. Enfrentou a Morte,
enquanto a Sombra Fabulosa massageava-lhe a matéria.


quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Presságio

 


Desejo-te, pássaro,

Beija-flor de flores mortas.

Asas de orvalho amassadas,

Arremessadas contra a sepultura. 








segunda-feira, 13 de maio de 2024

Balada do poeta melancólico


Quem me dera ser

Fleumático

Como o Patinha

Amigo de infância

Se rindo

Só rindo

De todos, de tudo, para todos.

Porém quis a Fortuna

Besta faminta de lágrimas

Instalar em mim

Uma tristeza sem fim.



sexta-feira, 22 de março de 2024

De repente 30

 


Procuram-se alunos e ex-alunos 

do professor Ajosé!

Link de inscrição na "bio" do @professor.ajose

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Estalos



Desde que assisti ao mais recente curta metragem do roteirista e diretor piauiense F. Monteiro Júnior, protagonizado pelo ator Felipe Zahir¹,  minha alma estala a cada pensamento-movimento, consciente de si mesma. Feito aquela criança incomodada com as roupas apertadas, sou agora obrigado a conviver com um corpo que já não me serve mais. Resta-me torcer para que uma Kombi, em alta velocidade (nem mesmo sei se Kombis alcançam altas velocidades), destrua as grades enferrujadas - couraças enrijecidas ao longo dos anos -, arremessando o artista² além das descomunais amarras sociais que o (me) reprimem. 

1. A entrega desse jovem ator à personagem, bem como a sintonia com a atriz Serena Morais, verdadeira bailarina imortalizada pelas caixinhas de música, são de arrepiar. 

2. O cinema piauiense também precisa atrever-se a atravessar a avenida Frei Serafim sem olhar para os lados. 



quarta-feira, 9 de agosto de 2023

quinta-feira, 13 de julho de 2023

 


Em algum universo que não seja este universo

Encontrarei pessoas sensatas e de bom coração

Capazes de compreender que eu morri. 

quinta-feira, 22 de junho de 2023



Diante de tantos memes a respeito dos bilionários desaparecidos, questiono: qual a diferença entre a atitude deles que partiram numa "aventura" a bordo de um submarino e a do "cidadão comum" que sai bêbado, em alta velocidade e sem capacete em sua moto?

Cada um se "diverte" como pode!

terça-feira, 2 de maio de 2023

Desabafo metalinguístico




Não suporto qualquer estação

De Trem, Vida ou Morte


Justamente por estar são


Temo o Inverno

O Céu

O Inferno


E cada Palavra

Lavra de mim. 

domingo, 12 de março de 2023

A terceira lei

 


Oh, meu amor, jamais esperes do poeta 

qualquer ação 

que não seja uma retribuição 

mesquinha 

do bem ou mal praticados por ti. 


Não habitam deuses em mim.