Caro Washington Ramos,
Em 2026
despedaço-me em 51 capítulos.
Se estive
inteiro um dia, foi bem antes dos primeiros instantes de 1975.
Enquanto
prisioneiro do passado assustadíssimo com as (im)possibilidades futuras não
suporto encarar o presente que se apresenta, vívido momento, que se pressente
prescindível de mim.
Há dias
em que suspeito que existir não seja senão este exercício exaustivo de
comparecer atrasado ao próprio tempo. Quando chego ao ontem, ele já se fez
ruína; quando me inclino ao amanhã, descubro tratar-se apenas de um espelho
opaco devolvendo o contorno mal resolvido dos meus receios.
O agora, esse
animal indomável, não se deixa tocar. Aproximo-me dele e já se fez memória.
Nomeio-o e imediatamente deixa de ser. Talvez por isso eu escreva: para fingir
permanência; para produzir em papel a ilusão de que os instantes obedecem a
alguma ordem e não ao ímpeto selvagem de desaparecer.
Cada um
dos 51 capítulos não é propriamente um ano, mas uma tentativa de tradução.
Traduzo perdas em escolhas. Traduzo ausências em maturidade. Traduzo o que não
compreendi em filosofia barata e o que compreendi em silêncio.
Recordo-me
menos dos fatos que das atmosferas: a quentura das madrugadas, o cheiro dos
lugares que já não existem, as palavras que disseram menos do que escondiam.
Descobri tarde que a memória não arquiva acontecimentos, reescreve-os. E eu,
leitor involuntário de mim mesmo, insisto em acreditar na versão mais literária
dos fatos: não envelheço, acumulo versões.
Há em mim
um homem que ainda espera o que já aconteceu e outro que lamenta o que jamais
virá. Entre ambos, sobrevive este que escreve, espécie de mediador cansado
entre aquilo que fui incapaz de viver e aquilo que continuo incapaz de
abandonar.
Talvez o
presente, impaciente, apenas não me espere. Então sigo, recolhendo pedaços,
numerando outonos, convencendo-me de que capítulo não é sinônimo de fragmento, mas
de continuidade interrompida.
Teresina-PI,
17 de junho de 2026, às 11h17
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