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terça-feira, 25 de março de 2025

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Resenha poética


No coração da poeta não há ventos uivantes. Catherine, Hindley e Heathcliff, reduzidos a frágeis teias de aranha, apenas decoram os cantos devastados daquele canto Wuthering Heights. Da sepultura, Nelly Dean, silenciada pelos vermes - verdadeiras testemunhas de incontáveis fracassos -, apenas lamenta que a terra não lhe seja serena. 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

1,99 – Um supermercado que vende palavras



Logo no início do filme de Marcelo Masagão, deparamo-nos com uma personagem empurrando um carrinho de supermercado. É possível perceber também produtos, identificados por palavras ou números, dispostos em prateleiras. Ora, o carrinho, os produtos e as prateleiras combinados - ícones organizados por similaridade - remetem-nos imediatamente ao título da produção cinematográfica: 1,99 – um supermercado que vende palavras.

Há uma nítida transposição de conceitos e caracteres denotativos e conotativos - tão familiares à linguística - para o cinema, enquanto sistema de signos. Mas também há, por parte do roteirista e do diretor, a consciência da importante ligação entre as linguagens verbal e não verbal, e uma nítida valorização do representante, quando instigam o público, no processo de compreensão da obra, a romper com a dualidade significante/significado.

Aquele supermercado não é qualquer supermercado. Ele vende palavras. E não são as palavras símbolos autênticos? Por isso mesmo, nos primeiros minutos do filme, o público, antes de acomodar-se diante da obra, passeará pelo fenômeno das categorias peirceanas, sejam elas: primeiridade, secundidade e terceiridade, compreendendo assim que a construção da interpretação, longe de ser arbitrária, é racional e dialética.

O leitor incapaz de identificar imagem e diagrama, subclasses peirceanas do ícone, no filme de Masagão, não estabelecendo assim uma relação entre significante e significado e seus respectivos desdobramentos conotativos, dificilmente compreenderá quem são – ou o que representam – aquelas pessoas cercadas de pneus velhos em um depósito carente de palavras, para citar apenas um exemplo.

Assista ao filme:

https://www.youtube.com/watch?v=vSmuy5ZHBlU&list=PL62B784873F936B8F

Texto apresentado à disciplina Semiótica da Cultura, ministrada pelo Prof.º Dr.º Feliciano José B. Filho, Mestrado Acadêmico em Letras, UESPI.


domingo, 7 de maio de 2017

A Terceira Margem do Rio



O título do conto de Guimarães Rosa já provoca certo estranhamento. O que seria essa fantástica terceira margem? Considerando-se signo a substituição ou representação de uma coisa por outra, em que consistirá aquela metáfora? Será o pai, homem quieto, levando ao extremo o isolamento? Ou o próprio rio naquele pedaço de substância que não chega a tocar as margens direita ou esquerda? O que substitui o quê?

Para melhor organizar a breve análise que em momento algum pretenderá alcançar a irrelevante intenção do autor, valho-me da seguinte afirmativa de Paul Válery: “Não há verdadeiro sentido de um texto”, para logo em seguida, dessa vez citando Todorov, “O autor entra com as palavras e o leitor com o sentido”, ratificar a ideia de que a infinitude de significados de um texto não resultará, sobremaneira, em interpretações medíocres.

Os signos como passam a ser trabalhados pelo autor, numa combinação inédita, lançam um novo signo: pai e rio tornam-se uma outra coisa, provocando assim uma necessidade de estudo e compreensão daquela nova verdade, até - parafraseando Jung - tornar-se familiar demais, perdendo assim todo o mistério. Quando, finalmente deixaremos Guimarães Rosa em paz, um homem dentro de uma canoa em um rio será apenas um homem dentro de uma canoa em um rio.


Texto apresentado à disciplina Semiótica da Cultura, ministrada pelo Prof.º Dr.º Feliciano José B. Filho, Mestrado Acadêmico em Letras, UESPI. 

           


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Crônica do Primavera



Cebola chegou “tocando terror”. Aos 56 anos mais parecia o Sméagol, de O Senhor dos Anéis (os fãs de Tolkien ficariam impressionados com a semelhança). A magreza excessiva camuflava a força sobrenatural concentrada em seus braços. Olhava para lugar nenhum. Gritava onomatopeias. E para deixar claro que ainda controlava a própria existência arrancava vez ou outra a sonda nasogástrica. Também era recordista em cuspe a distância e especialista em desatar os nós que aprisionavam o corpo inquieto.

Cebola – não fomos capazes de alcançar o seu verdadeiro nome – morou os últimos três anos em um abrigo para mendigos. O funcionário que o acompanhava descrevia-o, achando tudo muito engraçado, como uma pessoa agressiva e propensa a certos abusos de ordem sexual. O rapaz adorava quando Cebola ameaçava-o, estendendo a mão direita, como se empunhasse um revólver. A certeza de que na cama 3 havia um pistoleiro tarado ensandecido deixou-nos bastante preocupados. Apenas papai dormiu naquela noite. Edilson – o paciente da cama 1 – e eu jogamos Uno até as cinco da manhã.

Cebola, cada vez mais traquinas, estabeleceu o caos na enfermaria 2. Não se calava sequer um instante. Há uma semana acompanhando meu pai, não tivemos manhã mais agitada. Papai, sempre afeito à tranquilidade, apenas resmungava, enquanto Edilson e eu colocávamos em prática o plano cruel elaborado durante a madrugada: despejaríamos o coitado do Cebola.

Graças à complacência da enfermeira de plantão e a uma vaga que surgiu na enfermaria 4, livramo-nos do Cebola. Triste sina a sina desse homem, murmurou meu pai. Edilson, reprimindo o riso e a dor abdominal, acrescentou: O cara conseguiu ser expulso de uma cama de hospital. Eu, antecipando faíscas e estrondos, somente pensava em colheitas e plantações.

            

domingo, 19 de abril de 2015

DOR QUE DESATINA SEM DOER



Naquela noite a poesia não veio. Camões sentou-se na calçada fria do cemitério em chamas. Observou, através do portão enferrujado, os defuntos correndo entre as covas, brincando de vida. Angustiado, afinal perdera o bem mais precioso em um sonho maluco, prometeu a si mesmo não mais se apaixonar. Amaldiçoou o coração e desejou jamais ter conhecido a língua portuguesa. 

domingo, 12 de maio de 2013

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Premonitório






 

Quando o demônio visitou o poeta

 


Feito bicho macaco azarento

Um rouxinol garganteou agourento

 


Parecia zombar da máscara de horror

Alimentar-se do sangue e da cor

Vermelhidão implacável indigesta.





segunda-feira, 20 de junho de 2011

sábado, 7 de maio de 2011

Enquanto isso na sala de aula


Certa vez uma aluna da primeira série do ensino médio interrompeu a aula de literatura para afirmar, confirmar, declarar, o seu profundo ódio pela leitura. E acrescentou: ninguém será capaz de despertar em mim, de estimular em mim, de desbravar em mim, o (bom) gosto pelos livros.

Nem pude dizer para ela que aos quinze aninhos também pensava assim. Bem antes já percebera a importância da literatura em minha vida. Ainda criança, carente de computador e de aparelhos sofisticados de DVD – recebi de autores clássicos, nacionais e estrangeiros, o apoio necessário – antídoto até – contra a solidão que se instalava em mim. E não estou aqui afirmando que me interessei pela literatura por falta de opção. Opções sempre existiram aqui, ali e acolá.

Incomoda-me pensar que algumas pessoas pensam (e divulgam) a incompatibilidade entre leitura tradicional e tecnologia. Acesso diariamente a internet. Navego pelo ORKUT, MSN, TWITTER e FACEBOOK. Faço download de músicas, vídeos e textos. Assisto a muitos filmes toscos no YOUTUBE. Favoritei os principais jornais e revistas do país. O cinema é uma grande paixão. E daí? O que me impediria de – ainda - curtir um bom livro?

Talvez a preguiça diante da possibilidade de ler e interpretar frases, períodos, estrofes, parágrafos inteiros. Ou mesmo a suposta facilidade encontrada pela geração CTRL-C/CTRL-V que sequer precisa ler o trabalho de pesquisa, encontrado ali prontinho, em sites destinados a disseminar uma acomodação distorcida e perigosa.

Voltando à aluna da primeira série do ensino médio, não a considero um caso perdido. Nunca se perde um jovem completamente. Creio que minha menininha perceberá um dia que a literatura, enquanto desdobramento da realidade, é espelho trincado – reflexo quase fiel – de seus próprios desejos, encantos, frustrações e realizações.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ignorantim



Não sei bem o que sou. Nem o que pretendo ser. Crescer. Padecer. Mais parecer esboço do esboço. Tamanho esforço e ainda não ter. Aparência. Essência. Aquela dormência na alma. Calma, Jeosá. Adormeço. Esqueço. Ofereço (me) a (o) sacrifício. Malefício. Vício necessário. Prazer ao contrário. Espelho inverso refletindo o reflexo do que jamais alcançarei. Ser. Crescer. Padecer.

De volta à escrivaninha. Os objetos de sempre, sempre observando. Curiosos. Espreitam o novo texto. O silêncio de Jeosá. Mãos macias confeccionando uma nova (?) combinação de palavras. O desabafo de todas as noites. Ora fragmento. Ora ideia. Ora ideia incapaz de materializar-se enquanto expressão. Dimensão. Tempo. Espaço. O fracasso do fracasso não seria libertação?

Pois não. Divagação. Quando o caminho estreito estreita e mesmo assim seguimos em frente. Não há passagem. Mesmo assim o poeta caminha pelo terreno rumo ao abismo de não se ter mais para onde ir. Refletir. Concluir. Permitir-se. Perder-se. Ofender-se. Ninguém compreende por que um homem sentado diante de um computador encara o teclado e digita e encara o teclado e digita letra após letra. Compreenderiam se as letras, metáforas de lágrimas borrassem as minhas mãos?

Sigo escrevendo. Antevendo frustração. Resignado diante da impossibilidade de exprimir o que brada dentro de mim. Ignorantim. Arlequim cínico. Personagem inadequado para a representação de uma tragédia. Nem Édipo. Nem Hamlet. Apenas Jeosá. O clown. O grotesco. Existindo. Exibindo. Ordinária representação.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Atrevimento


Desdém. Soberba. Presunção. Arrogância. Pedestres desafiando automóveis. Imprudência. Tolice. Idiotia. Precipitação. Delirar feito Ícaro e despencar de um ego-altura-notável. Vaidade. Bazófia. Filáucia. Orgulho. Perceber-se um império esquecendo que os impérios certo-tarde-cedo, arruinados, desaparecerão.

Sou professor de literatura há 15 anos. Adoro o meu trabalho. Cultivo uma paciência poucas vezes abalada pelo comportamento arredio de discípulos “psicopatinhas”. Relacionando autores, obras e características das mais diversas escolas literárias ao cotidiano dos alunos, consigo estar juntinho-pertinho-coladinho da maioria. As experiências dos “meus” adolescentes tornam-se, constantemente, maravilhosos espetáculos (desabafos) durante as aulas.

Apenas não tolero a ignorância. O não querer pagar-responder-assumir-encarar provoca em meu espírito, tão afeito à harmonia, uma explosão-destruição jamais vista em qualquer guerra de até então. Pois não. E assim, mais parecendo um desses soldados matar-ou-morrer, armado do mais sofisticado instrumento de provocação, disparo argumentos que sequer atingem qualquer coisa que seja inimigo ou civil inocente.

Camarinhas de sangue anunciam meu corpo enquanto único corpo ferido durante o combate. Maldita consciência que me conduz à reflexão. Compreender o quê? Conversar com a coleguinha, atrapalhando o andamento da aula, tudo bem. Mas sentir-se ofendida-constrangida ao ser interrompida pelo professor é um filme de terror daqueles filmes de terror em que todos os mocinhos são assassinados – e com requintes de crueldade.

Assim fui afrontado por uma aluna da segunda série do ensino médio:

- Eu faço o que quiser. Onde quiser. Quando quiser.

O leitor é capaz de enxergar-imaginar a minha cara de bobo? E a postura deus-meu-o-que-digo-agora? Como enfrentar alguém tão poderoso? Adversários onipotentes não constam do catálogo de adversidades elaboradas, estrategicamente, para estressar o professor. Muito menos há em sala de aula um mural com respostas selecionadas especialmente para ocasiões dessa natureza.

Na condição de quem não faz o que quer, onde quer e quando quer, conduzi a moçoila à coordenação. Regras são regras. Deixei-a sentadinha – olhos esbugalhados amaldiçoavam o professor e todos os filhos do professor. Retornei para a sala. Contrariado. Desanimado. Encerrar a aula, dez minutos antes de tocar o sinal, foi o máximo de liberdade-revolta que ainda consegui manifestar-desfrutar.