Infância

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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Balada do verbo permanecer

 


Caro Rodolfo Pena,

Mesmo sabendo que jamais retornará para a tua Ítaca mineira, obstinado como o herói homérico, tu envelheces diante de mim.  Ao contrário de Odisseu, a missão assumida por ti consiste em permanecer.

Permanecer vivo.

Permanecer onde está.

Há homens que atravessam infernos para reencontrar aquilo que perderam. Tu atravessaste o tempo justamente para não perder. E talvez por isso envelhecer seja, para ti, uma espécie particular de viagem. Não existem navios, monstros excêntricos ou fortunas caprichosas. Há apenas os dias: pequenos deuses domésticos que nos devoram silenciosamente.

Eu te observo e penso que envelhecer é resignar-se enquanto tudo ao redor se transforma em ausência. Talvez seja por isso que tua presença me pareça hoje tão insistente.

Tu permaneces.

Não por covardia diante do desconhecido. Permanecer onde se está talvez seja mais difícil que partir. Quem parte pode atribuir ao caminho a responsabilidade por sua mudança. Quem fica precisa testemunhar, dia após dia, a própria transformação.

 

- E tu tens sido testemunha de ti mesmo, tornando-te lentamente aquilo que sempre foi sem até então perceber.

 

          Quedaram-se as conversas, as aulas, os livros, as amizades, as pequenas liturgias do cotidiano; as manhãs em que acreditávamos que ainda havia tempo para tudo. E permaneceram, sobretudo, aquelas coisas que só descobrimos quando já não podemos recuperá-las: a juventude, os mortos e algumas versões de nós mesmos.

 

- A vida, Papito, tem dessas crueldades delicadas!

 

Odisseu queria voltar porque acreditava que a família permanecia esperando por ele. Tu, pobre viajante de uma epopeia sem deuses, sabes que nenhuma casa permanece intacta. Quando retornamos, já somos outros. E, muitas vezes, o que chamávamos de lar era apenas memória inventada.

Eis a diferença: o grego precisou atravessar o mundo para descobrir que queria voltar; tu descobriste que tal façanha já não era necessária.

E talvez seja essa a tua maior viagem. Não para Troia, mas para dentro dos dias. Até que a vida decida permanecer sem ti.

Teresina-PI, 15 de setembro de 2026, 17h02

 


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