Infância

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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O homem que me abandonei

 


Caro Luís Romero, 

Aquela pensão em que tu me encontraste prescinde de qualquer descrição. Disperso das minhas obrigações, apenas devolvi para ti os pacotes intactos empanturrados de avaliações que jamais seriam corrigidas por mim.

Há semanas não ministrava uma aula sequer.

Eu me tornara um homem ausente de si.

Desapareci como alguém que se entrega ao Parnaíba deixando-me despencar de costas sem nem mesmo saber nadar.

É que a tristeza, quando amadurece dentro da gente, abandona a delicadeza de avisar que chegou. Instala-se. Toma posse dos móveis e dos livros. Aprende o caminho do banheiro durante a madrugada. Senta-se à mesa e, sem pedir licença, passa a responder por nós.

Naquela pensão, a cama não me pertencia e os lençóis jamais aprenderiam meu nome. Ninguém perguntava pelo professor, ou queria saber do escritor, ou desprezava o cineasta. Eu era apenas um sujeito qualquer diante de paredes de vidro, encarando portas e janelas de tijolos.

          Talvez por isso tu tenhas aparecido. Não para me salvar (desconfio profundamente de qualquer pessoa que se apresente com tais pretensões), mas para testemunhar o naufrágio.

- Tu viste o homem antes da ruína!

O que te devolvi, naquela manhã em que os ipês não cogitaram suspender a florada, eram apenas papéis. O que ficou, no momento da despedida, um quase nada de esperança de que alguma palavra acontecesse.

 

Teresina-PI, 24 de agosto de 2026, às 21h08


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