Caro Luís Romero,
Aquela
pensão em que tu me encontraste prescinde de qualquer descrição. Disperso das
minhas obrigações, apenas devolvi para ti os pacotes intactos empanturrados de
avaliações que jamais seriam corrigidas por mim.
Há
semanas não ministrava uma aula sequer.
Eu me
tornara um homem ausente de si.
Desapareci
como alguém que se entrega ao Parnaíba deixando-me despencar de costas sem nem
mesmo saber nadar.
É que a
tristeza, quando amadurece dentro da gente, abandona a delicadeza de avisar que
chegou. Instala-se. Toma posse dos móveis e dos livros. Aprende o caminho do
banheiro durante a madrugada. Senta-se à mesa e, sem pedir licença, passa a
responder por nós.
Naquela
pensão, a cama não me pertencia e os lençóis jamais aprenderiam meu nome. Ninguém
perguntava pelo professor, ou queria saber do escritor, ou desprezava o
cineasta. Eu era apenas um sujeito qualquer diante de paredes de vidro,
encarando portas e janelas de tijolos.
Talvez por isso tu tenhas aparecido. Não para me salvar (desconfio
profundamente de qualquer pessoa que se apresente com tais pretensões), mas
para testemunhar o naufrágio.
- Tu
viste o homem antes da ruína!
O que te
devolvi, naquela manhã em que os ipês não cogitaram suspender a florada, eram
apenas papéis. O que ficou, no momento da despedida, um quase nada de esperança
de que alguma palavra acontecesse.
Teresina-PI,
24 de agosto de 2026, às 21h08
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