Estive sempre disposto a ensinar. Disposto a educar.
Por ora, encontro-me desencantado. Não posso educar quem não está a fim de. A
couraça em meu coração há alguns meses é arma, mas principalmente escudo.
Impossível não tremer, taquicardia, diante da realidade que se avoluma e se
aproxima cada vez mais de minha alma: vivemos o reinado da arrogância e da
hipocrisia.
Infância
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segunda-feira, 23 de maio de 2016
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Atrevimento

Desdém. Soberba. Presunção. Arrogância. Pedestres desafiando automóveis. Imprudência. Tolice. Idiotia. Precipitação. Delirar feito Ícaro e despencar de um ego-altura-notável. Vaidade. Bazófia. Filáucia. Orgulho. Perceber-se um império esquecendo que os impérios certo-tarde-cedo, arruinados, desaparecerão.
Sou professor de literatura há 15 anos. Adoro o meu trabalho. Cultivo uma paciência poucas vezes abalada pelo comportamento arredio de discípulos “psicopatinhas”. Relacionando autores, obras e características das mais diversas escolas literárias ao cotidiano dos alunos, consigo estar juntinho-pertinho-coladinho da maioria. As experiências dos “meus” adolescentes tornam-se, constantemente, maravilhosos espetáculos (desabafos) durante as aulas.
Apenas não tolero a ignorância. O não querer pagar-responder-assumir-encarar provoca em meu espírito, tão afeito à harmonia, uma explosão-destruição jamais vista em qualquer guerra de até então. Pois não. E assim, mais parecendo um desses soldados matar-ou-morrer, armado do mais sofisticado instrumento de provocação, disparo argumentos que sequer atingem qualquer coisa que seja inimigo ou civil inocente.
Camarinhas de sangue anunciam meu corpo enquanto único corpo ferido durante o combate. Maldita consciência que me conduz à reflexão. Compreender o quê? Conversar com a coleguinha, atrapalhando o andamento da aula, tudo bem. Mas sentir-se ofendida-constrangida ao ser interrompida pelo professor é um filme de terror daqueles filmes de terror em que todos os mocinhos são assassinados – e com requintes de crueldade.
Assim fui afrontado por uma aluna da segunda série do ensino médio:
- Eu faço o que quiser. Onde quiser. Quando quiser.
O leitor é capaz de enxergar-imaginar a minha cara de bobo? E a postura deus-meu-o-que-digo-agora? Como enfrentar alguém tão poderoso? Adversários onipotentes não constam do catálogo de adversidades elaboradas, estrategicamente, para estressar o professor. Muito menos há em sala de aula um mural com respostas selecionadas especialmente para ocasiões dessa natureza.
Na condição de quem não faz o que quer, onde quer e quando quer, conduzi a moçoila à coordenação. Regras são regras. Deixei-a sentadinha – olhos esbugalhados amaldiçoavam o professor e todos os filhos do professor. Retornei para a sala. Contrariado. Desanimado. Encerrar a aula, dez minutos antes de tocar o sinal, foi o máximo de liberdade-revolta que ainda consegui manifestar-desfrutar.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Apenas mais uma lição

Magníficas lições as lições que nos ensinam as lágrimas. Principalmente quando é uma garotinha chorando assustada porque você a decepcionou.
Aconteceu assim mesmo. Fui capaz de agredir e reprimir olhos brilhantes. Revelei-me incapaz de perceber o encanto de uma menininha, caminhante anônima e discreta, esperta o bastante para reconhecer em mim o ser humano que sequer chegarei a ser.
E como tem sido difícil encará-la agora. Mais difícil ainda enxergar a materialização dos próprios erros. Quando os olhinhos da princesa recuam, encabulados, infinitas punhaladas, em infinitos pontos do meu corpo finito, tentam em vão atingir a alma do professor. É que o professor, traído pelo poderoso 1150, lançou pela boca o espírito pútrido. Há apenas sobejo de arrependimento sustentando a matéria desalinhada de Jeosá.
Tentando racionalizar minha atitude, afirmaria que o estresse provocado pela quantidade de aulas embotou-me o raciocínio. Acrescentaria, em meu argumento, o crescente interesse, de muitos adolescentes, pela disciplina “estudar é a maior bobagem”. Concluiria com o inadequado e frágil lugar-comum: errar é humano.
Não importa o que fiz. Não pretendo mesmo explicar. Padeço, momentaneamente, de impaciência narrativa. Descrever a cena provocaria calafrios ordinários. Melhor então nem começar. O aperto no peito e as mãos trêmulas e o arrependimento, castigos impostos pelo carrasco chamado consciência, habitante da cabeça do jerico, já provocaram em Jeosá angústia suficiente.
Penso na menininha e nos olhos da menininha desde o fatídico episódio. Precisei de duas semanas para compor esta crônica. Não sabia exatamente por onde começar. Nem o que dizer. Muito menos como me desculpar. De repente percebi o quão importante seria apenas escrever. Cada palavra, por si só, revelaria o tamanho da minha preocupação. Cada palavra, insistente, maçante, entediante (que seja!), acalmaria o coraçãozinho de Niellyda.
Acalmaria o coração de Jeosá.
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