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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Concílio dos Deuses


O Parvo

Não incomodaremos as Tágides do Rio Tejo. Nem sujeitaremos à apreciação de Calíope a nobreza de tal projeto. Que repousem na precipitação do devaneio todas a ninfas. Não há inspiração nos bosques. As florestas e as montanhas já não fertilizam a poesia. As NOIVAS e os BOTÕES DE ROSA não desabrocham mais. O que há de concreto é o concreto. Nenhuma plantinha desafiando o asfalto. Nada de gnomos ou duendes nos remetendo ao sonho. Nada de nada. Apenas a IDEIA, o CONCEITO e o NÚMERO. Apenas o SER CAPAZ DE. Apenas a insônia e a incerteza da conquista. Oh, IDEIA! Oh, CONCEITO! Oh, NÚMERO! Libertem-nos do cansaço que destrói o raciocínio. Da indolência traiçoeira e vulgar. Da inveja tão certa, como é certo o medo de errar. Oh, IDEIA! Oh, CONCEITO! Oh, NÚMERO! O fracasso sustenta a ociosidade. O fracasso ratifica o comodismo. O fracasso alimenta o desejar nada fazer. Oh, IDEIA! Oh, CONCEITO! Oh, NÚMERO! Desatem as paredes feito nós do labirinto. Envolvam-nos de inteligência e competência, para que as palavras, ferros em brasa, não calem tão humildes narradores.


TRECHO DA OBRA O CONCÍLIO DOS DEUSES, DE AJOSÉ FONTINELLE.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ignorantim



Não sei bem o que sou. Nem o que pretendo ser. Crescer. Padecer. Mais parecer esboço do esboço. Tamanho esforço e ainda não ter. Aparência. Essência. Aquela dormência na alma. Calma, Jeosá. Adormeço. Esqueço. Ofereço (me) a (o) sacrifício. Malefício. Vício necessário. Prazer ao contrário. Espelho inverso refletindo o reflexo do que jamais alcançarei. Ser. Crescer. Padecer.

De volta à escrivaninha. Os objetos de sempre, sempre observando. Curiosos. Espreitam o novo texto. O silêncio de Jeosá. Mãos macias confeccionando uma nova (?) combinação de palavras. O desabafo de todas as noites. Ora fragmento. Ora ideia. Ora ideia incapaz de materializar-se enquanto expressão. Dimensão. Tempo. Espaço. O fracasso do fracasso não seria libertação?

Pois não. Divagação. Quando o caminho estreito estreita e mesmo assim seguimos em frente. Não há passagem. Mesmo assim o poeta caminha pelo terreno rumo ao abismo de não se ter mais para onde ir. Refletir. Concluir. Permitir-se. Perder-se. Ofender-se. Ninguém compreende por que um homem sentado diante de um computador encara o teclado e digita e encara o teclado e digita letra após letra. Compreenderiam se as letras, metáforas de lágrimas borrassem as minhas mãos?

Sigo escrevendo. Antevendo frustração. Resignado diante da impossibilidade de exprimir o que brada dentro de mim. Ignorantim. Arlequim cínico. Personagem inadequado para a representação de uma tragédia. Nem Édipo. Nem Hamlet. Apenas Jeosá. O clown. O grotesco. Existindo. Exibindo. Ordinária representação.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O Teatro no Brasil


Não participo de uma produção teatral há alguns anos. Ando meio manco e desiludido. Pela primeira vez a ignorância de meu pai – “trabalhar de graça é perda de tempo, pagar para trabalhar é burrice” – parece fazer sentido. Não pelo trabalho em si. Mas pelo trabalho que dá, e acredito que não seja apenas no Piauí, convencer empresários e fundações (anti) culturais a investir em projetos artísticos. O resultado: montagens medíocres. A fatalidade: um público desconfiado. A realidade (?): maravilhosos são os espetáculos com atores globais. A indignação: ais, suspiros, ais.

É que o teatro no Brasil já surgiu deformado. Uma desfiguração só. Doutrinário. Coube à Companhia de Jesus transformar peças teatrais em instrumentos de educação e catequese. Não confundir com as encenações gregas que visavam, através da dramatização, preparar, por exemplo, as crianças, para um amadurecimento saudável. Aqui, individualidades e anseios não eram respeitados. E ainda tem crítico que brada por aí que os autos de José de Anchieta são de orientação Vicentina. Seriam, se Gil Vicente, prematuramente, não ousasse questionar – o que importa se moralisticamente? – os mais diversos comportamentos sociais. Seriam, se Anchieta, corajosamente, produzisse textos engajados e compretidos com o seu tempo, como faria mais tarde, em seus sermões, o padre Antônio Vieira. Seriam, se o Brasil – a Ilha dos Papagaios – não fosse tão jovem e não se arrastasse às margens do Renascimento Cultural Europeu.

A supremacia do gênero lírico – durante os primeiros quatro séculos de vida do Brasil (leia-se Brasil oficial) – também atravancou de certa forma o desenvolvimento do gênero dramático no país. Se considerarmos que o gênero épico, a partir do século XIX, principalmente com o desenvolvimento do romance, cativava cada vez mais o público burguês, sobretudo o universo feminino, enxergaremos um teatro nacional tímido, que tenta despertar a atenção da burguesia fazendo-a sorrir da sua própria hipocrisia. Coube a João Caetano – e não a Martins Pena – numa época em que se encenava em barracões e tablados improvisados, profissionalizar o teatro brasileiro, através do incentivo ao mecenato e à subvenção estatal.

Já no século XX – sei que muitos ficam confusos assim como eu -, o descaso daqueles organizadores da Semana de Arte Moderna em relação ao teatro. Como é possível que um evento encenado (ironia cruel!) no Teatro Municipal de São Paulo, não tenha percebido a força da arte dramática enquanto grito de uma nova escola literária? Logo eles, os modernistas, que buscavam na realidade do cotidiano motivos de inspiração. Por que não foram capazes de, antropofagicamente, regastar os trabalhos de Tchekhov e de Antoine? De Stanislavski e de Meyerhold? Talvez porque não houvesse um dramaturgo entre eles. Antecipando-me a possíveis comentários a respeito da produção dramática de Oswald de Andrade, limito-me a explicar que as peças sequer foram montadas, senão décadas depois da fase combativa do movimento.

A partir dos anos 40 do século XX, a explosão. Bertolt Brecht, Tenessee Williams, Arthur Miller, Samuel Beckett, Jean Genet e Grotowski desdobram-se em Nelson Rodrigues, Jorge Andrade, Plínio Marcos e Ariano Suassuna. Em pleno século XXI, Ariano Suassuna, Plínio Marcos, Jorge Andrade e Nelson Rodrigues desdobram-se em tantos outros. Do Clássico ao Absurdo. Do Absurdo ao Clássico, o teatro brasileiro procura ainda (silêncio mórbido) construir uma identidade a partir de tantas outras identidades.