Assim eu quereria a minha última postagem: que fosse eterna dizendo as coisas mais absurdas e menos divinais; que fosse gélida como uma lágrima sem soluços; que tivesse a certeza das flores paralisadas no estrume; a impureza da água imprópria para o consumo; o perdão do suicida que se mata sem a menor intenção.
Infância
segunda-feira, 30 de agosto de 2021
segunda-feira, 17 de maio de 2021
INDEFINÍVEL
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Perplexidade
Bem mais difícil do que imaginava. Afinal, enlouquecer não é perder a razão. É permanecer lúcido enquanto se enfrenta o ferro ardente da inquisição. Como, então, explodir a cabeça, se ali estão concentrados pensamentos tão claros?
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Efêmero
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Contagem Regressiva

Jeosá repousa sobre o tapete encardido da sala de jantar. Gatos gemem gemidos de prazer no maltratado jardim das flores mortas. Garfos e facas e pratos nervosos tilintam-tilintam-tilintam anunciando o passeio das almas.
Nem mesmo o desespero era capaz de aplacar a fome daquela mulher. Nem mesmo a estante (presente que dera ao filho) carregada de fracassos-troféus. A mãe de Jeosá devorava a carne e o arroz e o feijão como alguém que seria capaz de devorar a si mesmo. Esboçará algum esboço de reação ao encontrar a espingarda de canos duplos paralelos? Ao perceber o filho mergulhado na cama-piscina, afogado no próprio sangue?
Em algumas horas o professor de literatura estará no quarto. Sentadinho entre o guarda-roupa e a escrivaninha. Curtindo a derradeira noite. Aguardando a derradeira manhã. As velas. Oito olhos de escuridão. A espingarda de canos duplos paralelos. Tudo ajustadinho. Aquele crime perfeito que não fora elaborado até então.
sábado, 29 de janeiro de 2011
Jabuticabas

Olhos de escuridão. Oitos olhos de escuridão. Dois olhos de escuridão em cada cantinho do quarto de Jeosá. Casca negra perscrutadora. De que importa a brancura da polpa? O negrume impossibilita o trespassar da luz. É a noite passeando durante a noite e fazendo-se notar. Clarear. Surgir enquanto brilho intenso na ausência da luz.
Donde vêm aquelas imagens? Por que encaram Jeosá? Não será possível manejar uma espingarda de canos duplos paralelos sem que oito globos de luz e sombra repreendam as atitudes do professor?
Mesmo com as pálpebras ajuntadas. Mesmo submerso em lágrima-lençol. Mesmo tentando visualizar-se cadáver estendido na cama-sangue após a explosão. Mesmo assim. Haverá olhos de escuridão. Oito olhos de escuridão. Dois olhos de escuridão em cada cantinho do quarto de Jeosá.
Fantasma-fantasia agourando aqueles últimos instantes. Mas não há como desistir. Corrigir. Prevenir. Logo a treva submeterá a treva. A erva entorpecerá a erva. Fumaça e fogo. E Jeosá não mais existirá.




