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segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Parodiando Bandeira




Assim eu quereria a minha última postagem: que fosse eterna dizendo as coisas mais absurdas e menos divinais; que fosse gélida como uma lágrima sem soluços; que tivesse a certeza das flores paralisadas no estrume; a impureza da água imprópria para o consumo; o perdão do suicida que se mata sem a menor intenção. 

segunda-feira, 17 de maio de 2021

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Janeiro Branco


Suicídio
  uicídio
    icídio
     cídio
       ídio
        dio
          io
          Ø

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Perplexidade




Uma espingarda de canos duplos paralelos. Sobre a cama.  E no cantinho. Agoniadinho. Jeosá encara as próprias mãos. Terá mesmo coragem de apertar o gatilho quando o momento de apertar o gatilho finalmente chegar? 

Bem mais difícil do que imaginava. Afinal, enlouquecer não é perder a razão. É permanecer lúcido enquanto se enfrenta o ferro ardente da inquisição. Como, então, explodir a cabeça, se ali estão concentrados pensamentos tão claros?

Para Jeosá, o suicida, vítima de alguma espécie de surto, sequer perceberia a severidade de tal ato. Antes de trespassar uma bala pelo próprio crânio, seria acometido por um estado de indiferença mórbido. Mas não há torpor. Não há morbidez. Apenas a consciência estou prestes a (...). Apenas a certeza da interrupção. E aquela nítida imagem de um corpo enroladinho em lençóis de sangue.



domingo, 12 de maio de 2013

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Efêmero





A Taís Aragão
(In Memoriam)

Estranho
Tal qual folha de estanho
No castanho
E delicioso chocolate
Colar-te-ei
Em minha alma questionadora de minha alma
Enquanto aqui, ali, acolá
A colar pedacinhos de essência
Da existência que já não há

Ave agoirenta
Sedenta de sede cuja água é incapaz de aplacar
Cá entre nós os nós de marinheiros guerreiros
Meninos matreiros sem eira nem beira
Queimando fagueiros
Fogueiras obscenas da inquisição

Em que seção (E que sessão!)
Daquele pedacinho de vida
Arquitetou-se destruição?








quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Contagem Regressiva




Jeosá repousa sobre o tapete encardido da sala de jantar. Gatos gemem gemidos de prazer no maltratado jardim das flores mortas. Garfos e facas e pratos nervosos tilintam-tilintam-tilintam anunciando o passeio das almas.

Nem mesmo o desespero era capaz de aplacar a fome daquela mulher. Nem mesmo a estante (presente que dera ao filho) carregada de fracassos-troféus. A mãe de Jeosá devorava a carne e o arroz e o feijão como alguém que seria capaz de devorar a si mesmo. Esboçará algum esboço de reação ao encontrar a espingarda de canos duplos paralelos? Ao perceber o filho mergulhado na cama-piscina, afogado no próprio sangue?

Em algumas horas o professor de literatura estará no quarto. Sentadinho entre o guarda-roupa e a escrivaninha. Curtindo a derradeira noite. Aguardando a derradeira manhã. As velas. Oito olhos de escuridão. A espingarda de canos duplos paralelos. Tudo ajustadinho. Aquele crime perfeito que não fora elaborado até então.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Jabuticabas


Olhos de escuridão. Oitos olhos de escuridão. Dois olhos de escuridão em cada cantinho do quarto de Jeosá. Casca negra perscrutadora. De que importa a brancura da polpa? O negrume impossibilita o trespassar da luz. É a noite passeando durante a noite e fazendo-se notar. Clarear. Surgir enquanto brilho intenso na ausência da luz.

Donde vêm aquelas imagens? Por que encaram Jeosá? Não será possível manejar uma espingarda de canos duplos paralelos sem que oito globos de luz e sombra repreendam as atitudes do professor?

Mesmo com as pálpebras ajuntadas. Mesmo submerso em lágrima-lençol. Mesmo tentando visualizar-se cadáver estendido na cama-sangue após a explosão. Mesmo assim. Haverá olhos de escuridão. Oito olhos de escuridão. Dois olhos de escuridão em cada cantinho do quarto de Jeosá.

Fantasma-fantasia agourando aqueles últimos instantes. Mas não há como desistir. Corrigir. Prevenir. Logo a treva submeterá a treva. A erva entorpecerá a erva. Fumaça e fogo. E Jeosá não mais existirá.