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segunda-feira, 23 de novembro de 2020

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Assassinador (PRIMEIRA PARTE)


Meia-noite. Hora de voltar para a casa. A irmã acordada. Na sala. Impaciente. Meia-noite. Igual a tantas outras noites. Feito cobra arrastando-se pelas margens dos rios. Vez ou outra aqui. Vez ou outra acolá. Parnaíba. Poty. Até, finalmente, depois de visitar os mais diversos bairros da capital - os passeios estendiam-se durante todo o ano - deparar-se com o deslumbramento que era o encontro das águas. Parnaíba. Poty. Conceição. Os cotovelos no parapeito da janela. Encarando o portão de ferro. Sonhando com o gemido seco das dobradiças enferrujadas. Seria dali que o irmão, cúmplice da escuridão - maltrapilho, cansado, ensanguentado -, regressaria para o amor dos braços gordos, dos peitos enormes, das coxas macias.

Aquela semana não fora das melhores. Três mulheres. Apenas uma vítima. Há dez anos não eram tão espertas. Há dez anos mataria uma a cada dia se tivesse disposição para tanto. Imprudentes. Frágeis. Assustadas. A irmã alertava. Aconselhava. Toma cuidado, menino. Cria juízo, cão dos inferno. Mas assim, sem titubear, continuava matando, estuprando, esquartejando. Há dez anos. Tu ainda vai acabar sendo preso, criatura. Há dez anos. Deixa de conversa besta, Ceição. Quem é que me pega, quem é?

Aquela semana não fora das melhores. Maria José e Maria das Dores pressentiram o perigo. Em que vacilara? Passo em falso. Precipitação. Duas noites perdidas. Conceição nem perguntou nadinha de nada. Sabia que não havia remédio. Conhecia bem o irmão. Era conformar-se. Deitar-se na cama e dormir. Crispim descansaria mesmo no alpendre. Estirado na rede. Faminto. Envergonhado.

Maria Celeste não tivera a mesma sorte. Enquanto o portão automático deslizava pacientemente, a abordagem. Saíra tudo conforme o planejado. O desespero. A súplica. O dinheiro e o carro ofertados àquele deus de carne e osso. Dirige, dona Maria! Dirige que eu sei o que tô fazendo. A resignação.

(CONTINUA...)

domingo, 16 de outubro de 2011

Por que mataram Fernanda Lages?


Sir. Artur Conan Doyle e Edgar Allan Poe já se encontram em Teresina, capital do Piauí. Holmes e Dupin acompanham seus respectivos criadores. Garantem esclarecer o assassinato da estudante Fernanda Lages. O que não podem garantir é que seus métodos dedutivos também sejam capazes de contornar a politicagem piauiense purulenta, prendendo, finalmente, os responsáveis pelo homicídio.

Em entrevista coletiva, ainda no aeroporto, os investigadores desabafaram. Não somos bem vindos. Não estamos sendo pagos por ninguém. O que nos move é o prazer da descoberta - a solução de mais um mistério.

Enquanto espectador dessa novela policial, resta-me aguardar e torcer para que a ficção seja, mais uma vez, capaz de encarar, incomodar e desmascarar a realidade.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Salve Geral



Em 2006, entre os dias 12 e 16 de maio, 139 pessoas foram assassinadas em São Paulo. Bandidos. Policiais Militares. Bombeiros. Guardas civis metropolitanos.

Salve. Geral. Selva. Geral. Selvageria. 373 ataques. Delegacias de polícia. Agências bancárias. Metralhadas. Ônibus. Carros. Incendiados. Escolas. Universidades. Repartições públicas. Fechadas. 25.000 detentos rebelados. As investidas foram uma represália à transferência de 765 presos para a penitenciária 2 de Presidente Bernardes.

O filme de Sergio Rezende, candidato brasileiro a disputar o Oscar de Filme Estrangeiro em 2010, retrata tudo isso e muito mais. A exemplo de Zuzu Angel (2006), a protagonista de Salve Geral também é uma mãe capaz de atitudes extremas pelo filho.

Mas, por incrível que pareça, a crônica de hoje não é sobre o cinema nacional. Nem sobre o amor materno. Muito menos considerarei as arbitrariedades da ditadura militar. Pouco me interessa quem são os responsáveis pelo salve geral que aterrorizou a população de São Paulo. Provocarei apenas uma intertextualidade. Na tentativa de estimular a seguinte discussão: Por que no Brasil é tão difícil estabelecer limites entre quem é o herói e quem é o bandido? Entre quem é o culpado e quem é a vítima?

Analisemos matéria publicada em importante portal de notícias de Teresina. A mais recente em relação ao assassinato, na cidade de Corrente, da professora Adriana dos Santos. Segundo os advogados de defesa, está havendo uma “verdadeira caça às bruxas em Corrente. Meu Deus, e olha que não costumo pronunciar o nome Dele em vão, Arnaldo Messias matou, de forma passional, a ex-namorada, no interior da Faculdade do Cerrado Piauiense. Meu Deus, que Ele me perdoe por incomodá-lo mais uma vez, o que fez a polícia se não investigar e conseguir que o criminoso finalmente se apresentasse? Meu Deus, prometo que é a última vez que Lhe reclamo o nome, quantas vezes precisaremos assistir aos belos discursos de advogados, interpretando a lei conforme as necessidades de seus clientes?

Francisco Carlos Constanze, em artigo intitulado Crime Passional, destaca: “O que vige no Código Penal é que a emoção ou a paixão não exclui a culpabilidade de quem fere ou mata uma outra pessoa. Portanto, para o direito penal positivado na norma escrita, não há tratamento específico e mais brando para o crime passional”.

Entendo que houve um assassinato. O triângulo amoroso esclarece o motivo do crime. Mas não desculpa. Assim como a desarticulação de criminosos, ao serem transferidos, também esclarece a instalação de um cenário violento. Mas não justifica.

domingo, 28 de dezembro de 2008

O Aniquilador


Acaso

Aquela era a segunda vítima. Em apenas um mês. Se a primeira, uma adolescente magrinha, fora assassinada com quatro tiros certeiros: ora na cabeça ora no peito ora na cabeça ora no peito, o comerciante de 43 anos repousará ileso no fundo do Igaraçu. Mais cedo ou mais tarde, devorado pelos peixes – podridão só! – renascerá, eis a possibilidade, em uma margem qualquer, ou mesmo na rede de algum pescador.
Denílson continuará matando. Homens. Mulheres. Crianças. Ricos. Pobres. Bonitos. Feios. E a cada assassinato uma assinatura própria. Não cometeria o principal vacilo de um serial killer: determinar um padrão. Permitir o estabelecimento de um perfil psicológico. Alguns estudiosos sugerem que, inconscientemente, o psicopata quer ser capturado. As pistas, muito mais que desafios, seriam instrumentos deixados ali para facilitar o trabalho da polícia. Por isso mesmo, para driblar o inconsciente, o professor de literatura não afrontará os investigadores. Quanto mais aleatória for a escolha, quanto mais variados forem os métodos, menor a probabilidade de um crime ser relacionado ao outro. E assim, em intervalos de tempo imprecisos, seguirá feito um caçador bem treinado, tal qual o mais temido dos predadores, alimentando-se de tantos e quantos parnaibanos conseguir abater. Nulificar.

A adolescente magrinha

A menina estudava no Colégio das Irmãs desde o maternal. Por sorte as freiras reativaram o ensino médio. Não suportava a idéia de uma transferência para outra escola. O centenário do Colégio Nossa Senhora das Graças era o seu próprio centenário. Apegara-se tanto àquelas paredes que parecia ter testemunhado a construção de cada uma delas.
Agora só restava desfrutar os próximos três anos. Entrar para a universidade representaria a impossibilidade de estar ao lado dos amigos. Não acreditava naqueles discursos apaixonados que antecedem a separação. Sabia que nada seria como antes. Apenas fragmentos de lembrança.

O comerciante de 43 anos

O armazém ficava no cruzamento da Humberto de Campos com a Francisco Correia. O homem trabalhava sozinho. Quando precisava descarregar mercadorias mais pesadas contratava os estivadores que viviam fumando e jogando conversa fora pelas calçadas do centro comercial. Durante 14 anos estivera ali. Inclusive aos sábados. Só não trabalhava aos domingos, reclamava a esposa, porque não apareceria um cliente para espantar as moscas. Se não. Se não.
Fora sempre assim. Louco pelo trabalho. As refeições diárias eram apenas interrupções necessárias. Dormir: um desperdício. A vida não era ruim. Possuíam uma casa maravilhosa. Passeavam aos domingos. Não entendia o porquê de tantas queixas. Divertia-se ao ouvir as lamentações daquelas mulheres. Afinal, apenas mendigavam um pouco mais de atenção. Não relacionavam a vida tranqüila à sua ausência. Lastimavam como se acreditassem na possibilidade de estarem sempre juntos.

A adolescente magrinha

Aceitara, felicíssima, a carona. As amigas morreriam de inveja. Quem diria, logo ela, sentadinha ao lado do famoso professor Denílson. O magnífico contador de histórias. Nunca esqueceria, graças a ele, a aleijada Janet, de Robert Louis Stevenson. Muito menos o gato preto, de Edgar Allan Poe. Agora estava ali, nervosíssima! A imagem, estampada na mochila, da RBD Roberta, cantava uma música romântica. Parnaíba nunca estivera tão bonita. Havia em tudo a estranha sensação de nunca mais.

O comerciante de 43 anos

Não abria o armazém há três semanas. Sequer saía de casa. Nunca estivera depressivo. Também jamais sentira o quão importante era a família. A esposa – fortaleza! – assumira todas as responsabilidades. Mal sabia ela que em apenas um mês o inferno revelar-se-ia ainda mais poderoso.
O comerciante acordou disposto naquele dia. Sentou-se à mesa para tomar café. Devorou o cuscuz de arroz quentinho. Percebeu a dor – quantas olheiras! – no rosto pálido da esposa. As idéias, ainda embaraçadas pelo sofrimento, tentavam reagrupar-se feito soldados após o tiroteio. Mas estava ali, pronta para a próxima batalha. E ele? Suportaria mais uma baixa? Não. Indubitavelmente.

Acaso

Matar pai e filha não fazia parte do plano. Caos. Imprevisibilidade. Denílson na cadeia. Quando estava prestes a cometer o próximo assassinato, o quebra-cabeça fora montado pela polícia. Restava apenas compreender a motivação dos crimes. Estaria o professor apaixonado pela esposa do comerciante? Matou porque o comerciante descobrira a identidade do assassino da filha? A mulher seria a próxima vítima?
Não. Não. Não. Apenas um acidente fixando lógica na incerteza do abismo.