Infância

Infância

sábado, 22 de outubro de 2011

Da infância


Jeosá é o menino que brincava menino na época de eu menino. Jeosá e sua espingarda de canos duplos paralelos. Jeosá suicídio. Jeosá resquício de memória - lembrança distorcida de uma pseudoinfânciafeliz. Cadê meu filhote lindo chamado Dedé? Estou aqui, minha mãe. Arrebentado. Chorando espectros de lágrima. Arrependido de estar machucado e de não poder desfrutar daquele carinho gratuito – espécie de bônus por não ter aprontado deveras tanto quanto deveria.

Quando a Monareta sobrevoou o calçamento, arremessando Jeosá e o que ainda havia de esperança em Jeosá, a consciência da efemeridade do ser e das coisas e de um presente de aniversário configurou-se tatuagem em meu estômago rubro. O sangue-insônia era o sangue derramado pelos meus pais. A bicicleta-troféu não era prêmio. Era sacrifício. Agora disforme. Tal qual a alma de Jeosá.

A alma de Jeosá é uma bicicleta cuja roda dianteira não é mais capaz de rodar.

domingo, 16 de outubro de 2011

Por que mataram Fernanda Lages?


Sir. Artur Conan Doyle e Edgar Allan Poe já se encontram em Teresina, capital do Piauí. Holmes e Dupin acompanham seus respectivos criadores. Garantem esclarecer o assassinato da estudante Fernanda Lages. O que não podem garantir é que seus métodos dedutivos também sejam capazes de contornar a politicagem piauiense purulenta, prendendo, finalmente, os responsáveis pelo homicídio.

Em entrevista coletiva, ainda no aeroporto, os investigadores desabafaram. Não somos bem vindos. Não estamos sendo pagos por ninguém. O que nos move é o prazer da descoberta - a solução de mais um mistério.

Enquanto espectador dessa novela policial, resta-me aguardar e torcer para que a ficção seja, mais uma vez, capaz de encarar, incomodar e desmascarar a realidade.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O sangue que suga


nesta cidade
nesta idade
necessidade
de

través
através

vez
ou
outra

outorgar
a outrem

a capacidade

de
ser
feliz.



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Fênix


Ah, se aquela nave

Ave doida

Doída

Sentida

Sentinela dos céus

Perdoasse o poeta

Profeta de si mesmo

Ou mesmo o infame exegeta

Da sarjeta habitante

Distante de ter sido

O tecido macio

O macho no cio

Cioso e inúbil.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Explosão


Há fogo na cidade. Uma enorme fogueira, alimentada pelo combustível da impaciência e do maravilhoso desejo de transformação, destrói ônibus, verdadeiras metáforas da corrupção.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Anjos e lobos




Jeosá é uma daquelas brincadeiras
de quando se brinca de brincar
de lobo em pele de cordeiro.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Mandrião


Vai esta preguiça

Desperdiçando passos

Gritos alados faustinos

Gozos profanos mesquinhos

De tudo aquilo que um dia sonhei.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Lume


Partindo e repartindo mágoas

Tal qual o verme em sua fétida faina

Aproximando-me cada vez mais do desastre

Percorro e corro por toda parte (QUE ARTE!)


A chama já explora o estopim

Inevitável arrebentação

Desejo ser fogo para não ser consumido

Pelo próprio fogo que arde (QUE ARTE!)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Comédia


Eis Jeosá. Eis a espingarda de canos duplos paralelos. Eis o quarto. As velas. A escrivaninha. A cama. O corredor. A mãe. O impulso treme-treme da mão direita - do polegar direito - prestes a (não) apertar o gatilho.

Defunto organizando o próprio velório. Coveiro cuidando de cavar a própria cova. Assassino de si mesmo. Carpinteiro do ataúde em que (não) repousarei.

Tu encontrarás Jeosá. Ferido. Pobre. Triste. Amargo. Lúcido. A espingarda de canos duplos paralelos a tiracolo. Areia sob os pés descalços lembrando o último lençol amarrotado. O sanguessuor passeando pela rosto, umedecendo os lábios. E aquele desejo de fechar os olhos e de não encarar outra coisa que não seja a própria escuridão.

Eis Jeosá. O professor de literatura. O ator que sequer encarou a plateia porque as cortinas permaneceram fechadas. Por isso mesmo a plateia nunca soube que Jeosá esteve ali. Quietinho. Apenas ouvindo o reclama-reclama. Murmúrios inconsoláveis de quem pagou e não levou.

Tu encontrarás Jeosá. Tu encontrarás a espingarda de canos duplos paralelos. Tu encontrarás, ao abrir a porta daquele quarto, o filho – já sem rosto -, a resignação.

sábado, 2 de julho de 2011