Infância

Infância

terça-feira, 22 de abril de 2014

Nono Círculo





Os olhos de Joane
De um verde caramelo
Perscrutam assustadinhos
As faces castanhas
Os cílios enormes
A inconstância medíocre
Do pequenino poeta
De sobrancelhas espessas
Cujo nariz colossal
Tal qual cimitarra afiada
Premedita a injúria fatal.







quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Ternura

           
            Em Parnaíba éramos muito felizes. Meu pai. Minha mãe. Livramento. E eu. Morávamos na Doutor Vieira da cunha. Depois na Teresina. Mas sempre no bairro Nova Parnaíba. Lembro-me do primeiro carro. Um Corcel amarelo. A foto em que estou saindo do automóvel - mamãe ao meu lado sorri com ternura - vestindo uma camisa onde se percebe estampado o desenho do Bidu atiça-me a memória. Não consigo esquecer aquela camisa. Volta e meia ela está ali em minha cabeça disputando um cantinho entre pensamentos outros bem mais recentes. Talvez porque ao apertá-la na altura do peito se pudesse ouvir em alto e bom som o latido do cachorrinho azul.

            Há em mim, de criança ainda, um aperto que não é dor. Uma saudade gostosa de quando andar em uma cadeirinha sobre o guidão da bicicleta de papai era um passeio tão bom. Saíamos sempre à tardinha. Papai pedalava enquanto eu fazendo as vezes de co-piloto procurava evitar as poças de lama. Mamãe impacientava-se com a nossa demora. Deve-se respeitar o horário das refeições - dizia. Papai pilheriava sempre: Vamos comer então!

            Os dois cercavam-me de tamanho carinho que perguntas do tipo: DE QUEM VOCÊ MAIS GOSTA, MENINO?, soavam indelicadas e vulgares.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Carta para a minha mãezinha



Mamãe, a senhora me ensinou o verdadeiro significado do Amor. Não foram os poetas. Não foram os filósofos. Muito menos aquela gente tola que insiste em bradar por aí que o Amor é um sentimento alimentado pelo egoísmo. Se a conhecessem jamais escreveriam as asneiras várias que se divulga pelo mundo afora. Se a conhecessem compreenderiam que é possível amar sem nada exigir em troca. A senhora não exigia, mas sei que um tiquinho do nosso carinho e da nossa atenção bastavam para que se sentisse feliz. A verdadeira recompensa consistia mesmo em saber que estávamos bem. Prontinho. O seu dia já tinha valido a pena.
Mesmo Machado de Assis, tão pessimista a respeito da natureza humana, abalou-se diante da morte de sua Carolina. O escritor manteve inalterada a rotina de quando ainda estavam juntinhos. Durante as refeições, por exemplo, arrumava-se a mesa respeitando a “presença” daquela que conquistou o coração de uma das maiores inteligências da nossa literatura. Porque ninguém permanece inalterado quando a saudade, alimentada pela impotência, descarrega seus agressivos raios sobre a cabeça daqueles que amam.
A senhora que sofreu muitas vezes essa dor que somente agora aos 39 anos vivencio, desaprovaria comportamentos dessa natureza. Isso eu sei. Mas confesso, e peço desculpas se parecer por demais extravagante, Ícaro, papai, Viviane e eu guardaremos o paninho que sempre envolvia os seus olhos enquanto dormia e descansava um pouquinho da canseira que dávamos para a senhora. É que para dar trabalho sempre fomos incansáveis. Não mais incansáveis apenas que a senhora, minha mãezinha. Em sua tarefa cotidiana de resolver todos os problemas que nos afligiam descuidou-se de sua saúde. E, negligentes, papai, Ícaro, Viviane e eu esquecemos (ignoramos) que a senhora também precisava de nós.
Apenas não seremos capazes de esquecer (ignorar) cada pedacinho de momento que desfrutamos ao seu lado. O apoio que nos deu é a força que agora nos carrega nos braços. Não há desespero porque entendemos o quão abençoados somos. Afinal, ser amado por uma pessoa tão especial nos faz acreditar que talvez sejamos também especiais.
Não encerrarei com uma despedida, viu? A gente se despede diante da possibilidade de um afastamento. O que não vem ao caso, já que agora, mais do que nunca, seremos inseparáveis. Eis o verdadeiro significado do Amor: SIMPLESMENTE AMAR.



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Transgressão


Nicanor em Parnaíba. Rua Teresina. Diante do 576.  Naquele instante a ambulância do SAMU gritava-gritava a morte de Jeosá. Nicanor encarava as luzes vermelhas da sirene girando-girando impacientes. Não entendia o desapontamento que o incomodava. Afinal, estava ali para matar o professor de literatura. E Jeosá facilitara tudo ao disparar – voraz espingarda de canos duplos paralelos - contra a própria cabeça.

A mãe do professor lamentava o trabalho que teria para limpar toda aquela bagunça. O quarto estava que estava uma sujeira só. Fumaça e pólvora. Sangue. Cálcio. Fósforo. Sódio. Colágeno. Fragmentos de hipocampo e de hipotálamo ainda pairavam sobre a cama. E a sombra de Jeosá. Sombra rubra. Entre o guarda-roupa e a escrivaninha. Sombra rubra. Sentadinha no parapeito da janela ao fundo. Sombra rubra. Projetada nas paredes laterais. Sombra rubra. Agarrada ao gesso. Esforçando-se para não cair.

Agora Nicanor no quarto de Jeosá. O escritor não se lembra de ter percorrido qualquer outro cômodo da casa. Estivera o tempo todo ali? Surpreenderam-lhe os novecentos e noventa e nove círios acesos. Logo observou que o fogo não consumia a parafina. Aquelas velas arderiam sempre-sempre? E o que fazia segurando uma espingarda de canos duplos paralelos? E por que Jeosá, sentadinho na cama, implorava para que ele não atirasse? O escritor não seria capaz de matar o professor. Não mesmo? Ágatas ocres encararam ágatas ocres. Oito olhos de jabuticaba. Testemunhas mudas de um suicídio. De um assassinato?


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Perplexidade




Uma espingarda de canos duplos paralelos. Sobre a cama.  E no cantinho. Agoniadinho. Jeosá encara as próprias mãos. Terá mesmo coragem de apertar o gatilho quando o momento de apertar o gatilho finalmente chegar? 

Bem mais difícil do que imaginava. Afinal, enlouquecer não é perder a razão. É permanecer lúcido enquanto se enfrenta o ferro ardente da inquisição. Como, então, explodir a cabeça, se ali estão concentrados pensamentos tão claros?

Para Jeosá, o suicida, vítima de alguma espécie de surto, sequer perceberia a severidade de tal ato. Antes de trespassar uma bala pelo próprio crânio, seria acometido por um estado de indiferença mórbido. Mas não há torpor. Não há morbidez. Apenas a consciência estou prestes a (...). Apenas a certeza da interrupção. E aquela nítida imagem de um corpo enroladinho em lençóis de sangue.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Mater



O ataúde repousa

No coração de Helena.

Que venham as pás e as enxadas,

A areia e o Verme.

 


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Augusto





O morto que há em mim
Não é um espírito noturno
(alma penada a arrastar correntes)
É de carne (em decomposição)
E osso.




quarta-feira, 24 de julho de 2013

domingo, 14 de julho de 2013

Woolf


Pudera eu, Virgínia,
Resguardá-la em meu colo
(bem mais cálido)
Que as friíssimas águas
Daquele rio sedutor.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Blimunda




Tu és Sete Luas
Se não enxergas minha alma
É porque minha alma não está presa
Nesta prisão que é o corpo
Não é bem por incapacidade tua
É porque minha alma é livre
E está aqui e ali e está em ti
Tu que és claustro de mim.



sábado, 1 de junho de 2013

Filosofia de Boteco


Um dia estarei ali
De cabelos brancos
Sacudindo a cabeça
Aguardando a cerveja
Encarando a morte
Sozinho
Absorvido
Absolvido
Pela consciência 
Sabe-se lá o que penso e o que sou
Menininho dos olhos dourados
Cansados.




domingo, 12 de maio de 2013

domingo, 5 de maio de 2013

O Hóspede



Minha alma,
Feito este quarto de hotel,
É a perfeita caricatura do abandono.

Impossível perder-se ainda mais.

Inevitável não se afogar nas tépidas águas do Caldeirão.

E se desejar partir,
Retornar que seja,
For desejar morrer e silenciar e sumir?

quinta-feira, 2 de maio de 2013