Infância

Infância

terça-feira, 15 de maio de 2012

Perder-se



A escuridão não se libertará da escuridão. Sequer um resquício de luz no túnel. O túnel é a própria escuridão. Jeosá, enquanto prisioneiro de Jeosá, já não enxerga a escrivaninha. O guarda-roupa. A espingarda de canos duplos paralelos. Não enxerga a cama. Nem a própria escuridão. Jeosá não enxerga a si mesmo.
     Imagem intolerável do espelho – plano (?); côncavo (?); convexo (?) - que nada reflete. Raios luminosos não atingem os olhos do espectador. Há um vazio naquela superfície lisa. A mesma sensação experimentada por quem olha para o rosto de uma pessoa querida e não mais percebe os traços que a individualizam. Imortalizam.
     Quando a mãe de Jeosá invadiu o quarto não havia quarto. Encontrou apenas o beco e o muro que separava a casa da casa vizinha. Aterrorizada, gritou o nome do filho. À procura dos móveis que preencheriam o cômodo inexistente, a mulher agrediu a pedra branca pintada com cal. Apenas se acalmou quando o vermelho, deslizando pela parede, atingiu-lhe os pés.
     A verdade é que Jeosá não apertou o gatilho. Nunca houve uma espingarda de canos duplos paralelos. Nunca houve Jeosá. Apenas metáfora de. Onomatopeia de. Passeio sinestésico. Ideação suicida. 

     Esperança de. Não mais existir.
           
           
           

sábado, 21 de abril de 2012

Abril Desmitificado


Tal qual um viés de revestrés, eis que estamos aqui, TOLO, PARVO, CLOWN, para contar – NÃO! – para recontar gloriosa faceta humana.

Considerando o viés enquanto distorção, o revestrés enquanto desgraça e a faceta enquanto realização, há de se imaginar o quão curiosas são as informações que ora pretendemos compartilhar. PARTILHAR! COMPARTIR! PARTICIPAR! Possibilitar – SIM! – uma reflexão acerca da maior viagem de todos os tempos. 

Quinhentos dias de viagem. Quinhentos sobreviventes. Seis naus restantes. E muita história para INVENTAR. MITIFICAR. IMAGINAR. E muita gente herói. E tantos outros bandidos. E quantos heróis de fato bandidos. E quantos fatos sequer existiram, porque mentiram para nós. 

POR QUE MENTIRAM PARA NÓS? Porque a história, ESTÓRIA que seja, precisa de glória. Porque nos sujeitamos à fábula. Porque mesquinhos, precisamos da mentira, para nos sentirmos vivos. Para que vivos, possamos suportar a existência. E existindo, haja um sentido para tudo isso. E que isso seja apenas um círculo vicioso que nos envolve a todos. E que esse vício seja quebrado hoje. Justamente hoje. Para que possamos encarar o espelho. E diante do espelho, enxergar além da fantasia costurada feito pele em nossos corações.







quinta-feira, 12 de abril de 2012

Fragmentos de Leitura


 O que tenho lido ultimamente?

Sir. Arthur Conan Doyle. Felizmente comecei do começo. Um estudo em vermelho. Deparei-me com a genialidade e excentricidades do detetive Sherlock Holmes no mesmo instante-peripécia que o Dr. Watson fora apresentado ao herói. Inesquecível. A Baker Street, 221B, tornou-se o meu novo endereço. Londres, da segunda metade do século XIX, a minha atual realidade.

A poltrona de Holmes é agora a minha poltrona. Tabaco e cocaína ainda empestam o ambiente. Desfilam cotidiariamente, como em um espetáculo bizarro, dezenas de pessoas trazendo na bagagem a singularidade de seus mistérios. A esperança agonizante nos relatos, muitas vezes exagerados, acerca do poder sobrenatural daquele homem. Alto. Magro. Pálido. Camaleônico.

Excetuando-se o livro de contos O último Adeus de Sherlock Holmes, debrucei-me de maneira passional, contrariando as expectativas do famoso detetive, sobre a obra narrativa de Conan Doyle. Há quatro meses nenhum outro argumento desvia a minha atenção. Certamente, após a leitura da última aventura, Sherlock Holmes continuará fazendo parte das minhas reflexões. Feito aquele amigo que se foi, mas permaneceu.

Elementar, meu caro leitor.










domingo, 15 de janeiro de 2012

O sonho de Jeosá


A espingarda de canos duplos paralelos simplesmente desapareceu. Nem mesmo há uma escrivaninha. No lugar do guarda-roupa uma parede vazia. Uma velha cama de madeira (sem colchão) repousa no centro do quarto. Sequer um resquício das velas. Dos olhos de escuridão nenhum sobreviveu. Nadinha, nadinha de sombras conselheiras. E, principalmente, ali, naquela nave, apenas luz.

Os passos da mãe do professor de literatura não mais despedaçam o silêncio. Ao redor de Jeosá um sossego-vácuo maravilhoso. Para o professor tudo na casa faz parecer que se está em outra casa. Uma casa em que se pode respirar direitinho. Sem o aperto no peito de todos os dias. Estranho que não existam portas e janelas. Apenas os vãos apontando para uma saída que até pouco tempo seria uma impossibilidade.

Mas Jeosá prefere ficar. Sente-se bem. Confortável. Os destroços do cenário de um suicídio e a poeira característica de qualquer desastre não incomodam o professor de literatura. É que o professor de literatura, diante da metáfora-destruição dos Lefontenes, respira agora aliviado. Encontrou, finalmente, um lar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Inflamação


Rico em proteínas
O pus que ponho
Na tua boca
Afinal não é tão
Ruim
quanto parece.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Contagem Regressiva




Jeosá repousa sobre o tapete encardido da sala de jantar. Gatos gemem gemidos de prazer no maltratado jardim das flores mortas. Garfos e facas e pratos nervosos tilintam-tilintam-tilintam anunciando o passeio das almas.

Nem mesmo o desespero era capaz de aplacar a fome daquela mulher. Nem mesmo a estante (presente que dera ao filho) carregada de fracassos-troféus. A mãe de Jeosá devorava a carne e o arroz e o feijão como alguém que seria capaz de devorar a si mesmo. Esboçará algum esboço de reação ao encontrar a espingarda de canos duplos paralelos? Ao perceber o filho mergulhado na cama-piscina, afogado no próprio sangue?

Em algumas horas o professor de literatura estará no quarto. Sentadinho entre o guarda-roupa e a escrivaninha. Curtindo a derradeira noite. Aguardando a derradeira manhã. As velas. Oito olhos de escuridão. A espingarda de canos duplos paralelos. Tudo ajustadinho. Aquele crime perfeito que não fora elaborado até então.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Fascinação


Ébrio de febre
O poeta padece

E desce

Assustado

Encantado

Cansado

Entorpecido

Pelo torpe veneno

Torpedo obsceno

Daquela mulher

Melhor seria

(para o poeta)

Apenas olvidar
Não dar ouvidos
Aposentar a pena
Sequer enxergar
A triste lamúria

Gemidos de luxúria

Daquela mulher.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Concílio dos Deuses


O Parvo

Não incomodaremos as Tágides do Rio Tejo. Nem sujeitaremos à apreciação de Calíope a nobreza de tal projeto. Que repousem na precipitação do devaneio todas a ninfas. Não há inspiração nos bosques. As florestas e as montanhas já não fertilizam a poesia. As NOIVAS e os BOTÕES DE ROSA não desabrocham mais. O que há de concreto é o concreto. Nenhuma plantinha desafiando o asfalto. Nada de gnomos ou duendes nos remetendo ao sonho. Nada de nada. Apenas a IDEIA, o CONCEITO e o NÚMERO. Apenas o SER CAPAZ DE. Apenas a insônia e a incerteza da conquista. Oh, IDEIA! Oh, CONCEITO! Oh, NÚMERO! Libertem-nos do cansaço que destrói o raciocínio. Da indolência traiçoeira e vulgar. Da inveja tão certa, como é certo o medo de errar. Oh, IDEIA! Oh, CONCEITO! Oh, NÚMERO! O fracasso sustenta a ociosidade. O fracasso ratifica o comodismo. O fracasso alimenta o desejar nada fazer. Oh, IDEIA! Oh, CONCEITO! Oh, NÚMERO! Desatem as paredes feito nós do labirinto. Envolvam-nos de inteligência e competência, para que as palavras, ferros em brasa, não calem tão humildes narradores.


TRECHO DA OBRA O CONCÍLIO DOS DEUSES, DE AJOSÉ FONTINELLE.

sábado, 22 de outubro de 2011

Da infância


Jeosá é o menino que brincava menino na época de eu menino. Jeosá e sua espingarda de canos duplos paralelos. Jeosá suicídio. Jeosá resquício de memória - lembrança distorcida de uma pseudoinfânciafeliz. Cadê meu filhote lindo chamado Dedé? Estou aqui, minha mãe. Arrebentado. Chorando espectros de lágrima. Arrependido de estar machucado e de não poder desfrutar daquele carinho gratuito – espécie de bônus por não ter aprontado deveras tanto quanto deveria.

Quando a Monareta sobrevoou o calçamento, arremessando Jeosá e o que ainda havia de esperança em Jeosá, a consciência da efemeridade do ser e das coisas e de um presente de aniversário configurou-se tatuagem em meu estômago rubro. O sangue-insônia era o sangue derramado pelos meus pais. A bicicleta-troféu não era prêmio. Era sacrifício. Agora disforme. Tal qual a alma de Jeosá.

A alma de Jeosá é uma bicicleta cuja roda dianteira não é mais capaz de rodar.

domingo, 16 de outubro de 2011

Por que mataram Fernanda Lages?


Sir. Artur Conan Doyle e Edgar Allan Poe já se encontram em Teresina, capital do Piauí. Holmes e Dupin acompanham seus respectivos criadores. Garantem esclarecer o assassinato da estudante Fernanda Lages. O que não podem garantir é que seus métodos dedutivos também sejam capazes de contornar a politicagem piauiense purulenta, prendendo, finalmente, os responsáveis pelo homicídio.

Em entrevista coletiva, ainda no aeroporto, os investigadores desabafaram. Não somos bem vindos. Não estamos sendo pagos por ninguém. O que nos move é o prazer da descoberta - a solução de mais um mistério.

Enquanto espectador dessa novela policial, resta-me aguardar e torcer para que a ficção seja, mais uma vez, capaz de encarar, incomodar e desmascarar a realidade.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O sangue que suga


nesta cidade
nesta idade
necessidade
de

través
através

vez
ou
outra

outorgar
a outrem

a capacidade

de
ser
feliz.