Infância

Infância
Casa na rua Dr. Vieira da Cunha, em Parnaíba. (INFÂNCIA)

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Desabafos desescritos após uma desleitura de Mia Couto






Primeiramente

Deslinguagem é o descarrego de um coração no revólver da gente.



Segundamente


Há, acertadamente, em algum lugar nenhum, o leitor das estórias que não escreverei.



Terceiramente


Fica o desdito pelo não dito.




terça-feira, 6 de dezembro de 2016

sábado, 3 de dezembro de 2016

Cidade Verde



O asfalto freisserafínico reclama-reclama dos raios solarentos, pisa-pisa automobilístico, corre-corre humaneiro (suado-suado) de uma cidade quase-quase esquecida daquela verdidão-vastidão, bem(?) dita antonomásia de seu nome.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Feito em pedaços



Estive sempre disposto a ensinar. Disposto a educar. Por ora, encontro-me desencantado. Não posso educar quem não está a fim de. A couraça em meu coração há alguns meses é arma, mas principalmente escudo. Impossível não tremer, taquicardia, diante da realidade que se avoluma e se aproxima cada vez mais de minha alma: vivemos o reinado da arrogância e da hipocrisia.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Crônica do Primavera



Cebola chegou “tocando terror”. Aos 56 anos mais parecia o Sméagol, de O Senhor dos Anéis (os fãs de Tolkien ficariam impressionados com a semelhança). A magreza excessiva camuflava a força sobrenatural concentrada em seus braços. Olhava para lugar nenhum. Gritava onomatopeias. E para deixar claro que ainda controlava a própria existência arrancava vez ou outra a sonda nasogástrica. Também era recordista em cuspe a distância e especialista em desatar os nós que aprisionavam o corpo inquieto.

Cebola – não fomos capazes de alcançar o seu verdadeiro nome – morou os últimos três anos em um abrigo para mendigos. O funcionário que o acompanhava descrevia-o, achando tudo muito engraçado, como uma pessoa agressiva e propensa a certos abusos de ordem sexual. O rapaz adorava quando Cebola ameaçava-o, estendendo a mão direita, como se empunhasse um revólver. A certeza de que na cama 3 havia um pistoleiro tarado ensandecido deixou-nos bastante preocupados. Apenas papai dormiu naquela noite. Edilson – o paciente da cama 1 – e eu jogamos Uno até as cinco da manhã.

Cebola, cada vez mais traquinas, estabeleceu o caos na enfermaria 2. Não se calava sequer um instante. Há uma semana acompanhando meu pai, não tivemos manhã mais agitada. Papai, sempre afeito à tranquilidade, apenas resmungava, enquanto Edilson e eu colocávamos em prática o plano cruel elaborado durante a madrugada: despejaríamos o coitado do Cebola.

Graças à complacência da enfermeira de plantão e a uma vaga que surgiu na enfermaria 4, livramo-nos do Cebola. Triste sina a sina desse homem, murmurou meu pai. Edilson, reprimindo o riso e a dor abdominal, acrescentou: O cara conseguiu ser expulso de uma cama de hospital. Eu, antecipando faíscas e estrondos, somente pensava em colheitas e plantações.

            

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

De como meu pai reencontrou a minha mãe




Meu pai esquecera-se de muitas coisas nos últimos dias. Esquecera-se ou não dava mais um tiquinho de importância sequer. De três assuntos lembrava-se bem: fazer a barba, jogar na loteria e o seu nome completo. Sempre que alguém lhe perguntava a alcunha, feito aquela criança obediente e orgulhosa de ser o orgulho da família, ele respondia: Edimar Pacheco da Silva. Nas duas semanas em que esteve internado no hospital da Primavera, apresentava-se como Edimar Pacheco da Silva, o seu candidato. Por algum motivo - apenas suponho compreender - interessara-se pela política desde que dera entrada naquela enfermaria.


Já no apartamento, vivia a perguntar até quando ficaria hospitalizado. O colchão de ar, os medicamentos, os curativos, as fraldas, as chuveiradas na cadeira de banho e a alimentação balanceada correspondiam a uma rotina que distorcia a sua percepção do ambiente em que se encontrava. A mente engabelava tempo e espaço. Lagoa dos Porcos, Parnaíba e Teresina eram o mesmo povoado. Amigos e parentes, todos vizinhos. Em algumas tardes, após visitar os irmãos e o sobrinho Luís José (Lagoa do Porcos), passava pela casa do meu padrinho (Parnaíba) e somente descansava – minutos depois - quando deitava-se em sua cama, após o caldinho de feijão (Teresina). Por mais que variássemos os ingredientes, papai somente devorava a sopa se concordássemos que era mesmo caldo de feijão.

O Parkinson enrijecera-lhe os músculos. Também lhe apresentou à depressão e desencadeou uma série de alucinações. O emagrecimento e os tremores na cabeça, nos braços e nas pernas agravavam-se a cada dia. O falecimento de mamãe – casamento de 42 anos -, no dia 5 de janeiro de 2014, pode ser encarado como o último golpe tolerado pelo meu pai. Tolerou, mas não suportou. Um ano e sete meses depois, no aniversário de Parnaíba, às onze horas e cinquenta minutos, fora declarado morto pelo médico do SAMU que o assistiu.

Seu Edimar traspassou como sempre viveu. Tranquilo. Discreto. Sem nenhum tumulto. Não respondeu quando lhe pedi a benção. Apenas olhou para mim enquanto segurava com a mão direita a minha mão direita. Não conseguiu apertá-la como sempre fazia. Os dedos levezinhos, levezinhos. Percebi que a respiração cessara quando um vento moleque, impregnado de vida, invadiu o quarto e carregou a alma de papai. Lá fora os moleques empinavam pipas. Eram muitas as pipas. Mesmo assim, foi facilzinho distinguir, naquela confusão de cores, o sorriso de meus pais, no azulzinho do céu.



Teresina, 17 de agosto de 2015, 21h10

domingo, 19 de abril de 2015

DOR QUE DESATINA SEM DOER



Naquela noite a poesia não veio. Camões sentou-se na calçada fria do cemitério em chamas. Observou, através do portão enferrujado, os defuntos correndo entre as covas, brincando de vida. Angustiado, afinal perdera o bem mais precioso em um sonho maluco, prometeu a si mesmo não mais se apaixonar. Amaldiçoou o coração e desejou jamais ter conhecido a língua portuguesa. 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Travessia

Teresina, 21 de novembro de 2014.



Muitas travessias não passam de buscas por algo que se já alcançou. O ser humano feliz, por exemplo, é capaz de se envolver nas mais loucas aventuras porque, não se reconhecendo feliz, precisa, a qualquer custo, desvendar, para depois desfrutar, os mistérios do prazer.

Fernando Pessoa certa vez desabafou: “Triste de quem é feliz”. Permitam-me (Quanta ousadia!) parodiar o poeta português: Triste de quem não sabe ser feliz. Isso mesmo. De que adianta deparar-se com um transbordamento de felicidade, se o que enxergaremos será apenas uma gigantesca onda, destruição?

Acreditem, meus psicopatinhas, aquele maravilhoso jardim do vizinho não é tão maravilhoso assim. Talvez nem seja bonito se comparado a outros jardins. E daí? O que importa mesmo é como percebemos os seres e as coisas, como nos percebemos enquanto jardim. A frustração nada mais é do que se apegar aos fracassos, não compreendendo que esses mesmos fracassos jamais superarão as muitas vitórias conquistadas.

Vocês são vitoriosos, meus meninos. Vocês são vitoriosas, minhas meninas. Todos vocês são felizes. Somos todos felizes. Estamos ao lado das pessoas que amamos. Vestimo-nos de branco para celebrar. Fotografamos incontáveis abraços e sorrisos. Por que então exaltar a despedida? Exaltemos a amizade. Exaltemos os momentos que passamos juntos. Exaltemos a vida. Somente assim seremos dignos das surpresas dispostas ao longo desse novo caminho ladrilhado com pedrinhas de todas as cores.
           

           
            

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Encantamento




Ao professor Thiago Rodrigo

            Maria Helena Fontinele da Silva faleceu em janeiro. Cinco de janeiro. Dois dias após o meu aniversário. Desde então, sonhos recorrentes têm provocado em mim uma sensação de alívio em relação à imensa saudade que sinto. Saudade de filho único. Saudade de quem perdeu aquela que personificava o mais puro amor.
A imagem de minha mãe, deitadinha no ataúde, mãos comportadinhas, expressão faceira como a se gabar das obrigações cumpridas, estará sempre por aqui. Assim como os abraços e beijos e palavras ternas. Também a exagerada confiança em um futuro brilhante para o filho que jamais foi capaz de brilhar. Certamente, o cérebro (maravilhoso córtex frontal) não me decepcionará quando anos mais tarde eu precisar resgatar, apurados todos os sentidos, tais impressões eternizadas na pele, na alma.
Hoje gostaria de compartilhar os sonhos a que me referi no primeiro parágrafo. Sonhos mesmo. Bons sonhos. Nada de confundi-los com pesadelos. Porque neles mamãe está viva. Bem viva. Porque recebeu (recebemos) uma segunda chance. Deus, ressuscitando-a, proporciona a todos nós um recomeço.
E quando acordo não há tristeza. Há a presença de minha mãe. Sim. Estamos juntos novamente. Um milagre aconteceu. Não há angústia. Há a certeza de que ela não morreu. E não morreu mesmo. Depois de conversarmos bastante, de nos renovarmos enquanto mãe e filho, entendemos o valor da verdadeira imortalidade, metáfora do Amor que sentiremos sempre um pelo outro.

sábado, 26 de julho de 2014

Tragicômico



A Machado de Assis

Percebo agora

O encanto do velho bruxo


Grotesco tal qual Molière

(vem do dramaturgo francês também a ironia)

E de Racine o pessimismo
(a parcimônia)

O ser humano destituído de virtudes
(intolerante – intolerável).

 

 

terça-feira, 22 de abril de 2014

Nono Círculo





Os olhos de Joane
De um verde caramelo
Perscrutam assustadinhos
As faces castanhas
Os cílios enormes
A inconstância medíocre
Do pequenino poeta
De sobrancelhas espessas
Cujo nariz colossal
Tal qual cimitarra afiada
Premedita a injúria fatal.







quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Ternura

           
            Em Parnaíba éramos muito felizes. Meu pai. Minha mãe. Livramento. E eu. Morávamos na Doutor Vieira da cunha. Depois na Teresina. Mas sempre no bairro Nova Parnaíba. Lembro-me do primeiro carro. Um Corcel amarelo. A foto em que estou saindo do automóvel - mamãe ao meu lado sorri com ternura - vestindo uma camisa onde se percebe estampado o desenho do Bidu atiça-me a memória. Não consigo esquecer aquela camisa. Volta e meia ela está ali em minha cabeça disputando um cantinho entre pensamentos outros bem mais recentes. Talvez porque ao apertá-la na altura do peito se pudesse ouvir em alto e bom som o latido do cachorrinho azul.

            Há em mim, de criança ainda, um aperto que não é dor. Uma saudade gostosa de quando andar em uma cadeirinha sobre o guidão da bicicleta de papai era um passeio tão bom. Saíamos sempre à tardinha. Papai pedalava enquanto eu fazendo as vezes de co-piloto procurava evitar as poças de lama. Mamãe impacientava-se com a nossa demora. Deve-se respeitar o horário das refeições - dizia. Papai pilheriava sempre: Vamos comer então!

            Os dois cercavam-me de tamanho carinho que perguntas do tipo: DE QUEM VOCÊ MAIS GOSTA, MENINO?, soavam indelicadas e vulgares.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Carta para a minha mãezinha



Mamãe, a senhora me ensinou o verdadeiro significado do Amor. Não foram os poetas. Não foram os filósofos. Muito menos aquela gente tola que insiste em bradar por aí que o Amor é um sentimento alimentado pelo egoísmo. Se a conhecessem jamais escreveriam as asneiras várias que se divulga pelo mundo afora. Se a conhecessem compreenderiam que é possível amar sem nada exigir em troca. A senhora não exigia, mas sei que um tiquinho do nosso carinho e da nossa atenção bastavam para que se sentisse feliz. A verdadeira recompensa consistia mesmo em saber que estávamos bem. Prontinho. O seu dia já tinha valido a pena.
Mesmo Machado de Assis, tão pessimista a respeito da natureza humana, abalou-se diante da morte de sua Carolina. O escritor manteve inalterada a rotina de quando ainda estavam juntinhos. Durante as refeições, por exemplo, arrumava-se a mesa respeitando a “presença” daquela que conquistou o coração de uma das maiores inteligências da nossa literatura. Porque ninguém permanece inalterado quando a saudade, alimentada pela impotência, descarrega seus agressivos raios sobre a cabeça daqueles que amam.
A senhora que sofreu muitas vezes essa dor que somente agora aos 39 anos vivencio, desaprovaria comportamentos dessa natureza. Isso eu sei. Mas confesso, e peço desculpas se parecer por demais extravagante, Ícaro, papai, Viviane e eu guardaremos o paninho que sempre envolvia os seus olhos enquanto dormia e descansava um pouquinho da canseira que dávamos para a senhora. É que para dar trabalho sempre fomos incansáveis. Não mais incansáveis apenas que a senhora, minha mãezinha. Em sua tarefa cotidiana de resolver todos os problemas que nos afligiam descuidou-se de sua saúde. E, negligentes, papai, Ícaro, Viviane e eu esquecemos (ignoramos) que a senhora também precisava de nós.
Apenas não seremos capazes de esquecer (ignorar) cada pedacinho de momento que desfrutamos ao seu lado. O apoio que nos deu é a força que agora nos carrega nos braços. Não há desespero porque entendemos o quão abençoados somos. Afinal, ser amado por uma pessoa tão especial nos faz acreditar que talvez sejamos também especiais.
Não encerrarei com uma despedida, viu? A gente se despede diante da possibilidade de um afastamento. O que não vem ao caso, já que agora, mais do que nunca, seremos inseparáveis. Eis o verdadeiro significado do Amor: SIMPLESMENTE AMAR.



sábado, 7 de dezembro de 2013

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Transgressão


Nicanor em Parnaíba. Rua Teresina. Diante do 576.  Naquele instante a ambulância do SAMU gritava-gritava a morte de Jeosá. Nicanor encarava as luzes vermelhas da sirene girando-girando impacientes. Não entendia o desapontamento que o incomodava. Afinal, estava ali para matar o professor de literatura. E Jeosá facilitara tudo ao disparar – voraz espingarda de canos duplos paralelos - contra a própria cabeça.

A mãe do professor lamentava o trabalho que teria para limpar toda aquela bagunça. O quarto estava que estava uma sujeira só. Fumaça e pólvora. Sangue. Cálcio. Fósforo. Sódio. Colágeno. Fragmentos de hipocampo e de hipotálamo ainda pairavam sobre a cama. E a sombra de Jeosá. Sombra rubra. Entre o guarda-roupa e a escrivaninha. Sombra rubra. Sentadinha no parapeito da janela ao fundo. Sombra rubra. Projetada nas paredes laterais. Sombra rubra. Agarrada ao gesso. Esforçando-se para não cair.

Agora Nicanor no quarto de Jeosá. O escritor não se lembra de ter percorrido qualquer outro cômodo da casa. Estivera o tempo todo ali? Surpreenderam-lhe os novecentos e noventa e nove círios acesos. Logo observou que o fogo não consumia a parafina. Aquelas velas arderiam sempre-sempre? E o que fazia segurando uma espingarda de canos duplos paralelos? E por que Jeosá, sentadinho na cama, implorava para que ele não atirasse? O escritor não seria capaz de matar o professor. Não mesmo? Ágatas ocres encararam ágatas ocres. Oito olhos de jabuticaba. Testemunhas mudas de um suicídio. De um assassinato?