Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Ícaro


O homem deseja. Perfeito. Maravilhoso. Logo a aspiração torna-se realidade. Não realizaremos, individualmente, todos os sonhos (verdade inquestionável). Mas, aqui e ali, de grão em grão, e prontinho: minhas conquistas somadas às conquistas alheias resultam em um emaranhado de incontáveis possibilidades. Como se um gênio da lâmpada realizasse todos os desejos da humanidade, distribuindo-os entre cada um de nós. Fernando Pessoa, em sua obra Mensagem, já anunciava: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Até mesmo quando Ele não quer, acrescentariam os mais irônicos. Apenas para contrariar o poeta português.

Motivado pelo comentário de um colega professor, resolvi escrever este artigo. De orientação – religiosa, filosófica e psicológica – duvidosa, o mestre arremessou o seguinte comentário, a respeito do acidente aéreo, envolvendo o voo 447, da Air France: “Homem não foi feito pra voar. Se fosse pra voar nascia com asas que nem passarinho”. Passarinho. Titica de passarinho. Pensei. Elaborei. Calei.

O professor em questão ainda acredita que as asas de Ícaro foram destruídas pelo calor. Permanece confuso em descomunal ignorância entorpecida. A falha no funcionamento do Pitot (“O tubo mede a pressão frontal do ar e a compara com a pressão que entra por orifícios laterais.”), provocada pelo gelo que impede a entrada do ar, é considerada a causa mais provável da queda do Airbus. Bastaria que meu imprudente colega de profissão assistisse ao filme Homem de Ferro (Iron Man), para que a ingenuidade literária fosse substituída pela realidade científica. Ao tentar voar cada vez mais alto, tal qual o filho de Dédalo, Tony Stark, interpretado por Robert Downey Jr., é surpreendido pelo congelamento da armadura. O problema será solucionado logo nas cenas seguintes. Atitude que a Air France não tomou, mesmo consciente de problemas semelhantes registrados em algumas aeronaves.

Entusiasmado pelo Botafogo, um amigo perdeu recentemente a oportunidade de assistir a um clássico no Rio de Janeiro. Tudo porque não considera a possibilidade de voar. Assim como a de meu companheiro de profissão, sua opinião é imperturbável: “Lugar de gente é no chão. Em terra firme”. Para cada 10 milhões de voos de aeronaves de grande porte, apenas 4 acidentes. De acordo com o psicólogo e psicanalista Robert Wolfger, o medo de voar é irracional. E acrescenta: “Uma pessoa teria de voar todos os dias durante 3.400 anos para se tornar uma vítima”. O medo de voar, segundo o especialista, “é desproporcional aos verdadeiros riscos da aviação”.

O medo, estatisticamente, é, certamente, desproporcional. Mas não há coleta de dados que enfraqueça – concluo - os seguintes comentários empíricos: “Envie esses dados para as famílias das vítimas”, esbravejou o professor. “De repente é o dia do piloto”, ironizou o botafoguense.

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Mães e Filhos


Na semana que antecede o dia das mães, pretendo escrever (desabafar) a respeito de uma incômoda idéia, dessas que ficam atravessadas durante semanas, atrapalhando a organização dos pensamentos, implorando para materializar-se enquanto texto. Idéia que não resultará em cartões coloridos. Em agrados e mimos. Em palavras de amor.

Mães reunindo-se em grupos de apoio. Mães apoiando mães. Mães de filhos-apenas-saudade. Mães derrotadas diante de meninos mortos. Mães de filhos-apenas-lembrança. Mulheres sozinhas e confusas. Assimilando os porquês de tamanha aflição.
O adolescente não entende que, ao arriscar-se, é a vida dos pais que também está em jogo. O adolescente não vislumbra a possibilidade do erro. E ao errar, exaure a mãe em um inferno-turbilhão de desespero. Cabe ao pai (o macho racional indestrutível), juntar os cacos daquela família arrasada pela fatalidade. Bem sabe ele que o serviço é inútil. Nada será capaz de substituir o pedacinho que se foi para sempre.

E o pedacinho que se foi para sempre passava as noites com os amigos (pedacinhos que também se foram para sempre) praticando um estranho jogo de xadrez com a morte. Egocêntrico, não enxergava o vigor da adversária. Sem capacete, alcoolizado e em alta velocidade alumiava-lhe a possibilidade da vitória. De repente: xeque-mate. O reizinho está morto.

E quantos eufemismos diante da mãe! Quanta gritaria durante o velório! Por quê? Se era tão jovem. Por quê? Se era imortal. Por quê? Se sabia exatamente o que estava fazendo. Por quê? Se nada poderia atingi-lo. Por quê? Se agora apenas sombra. Apenas pó. Apenas nada.

Numa tentativa desesperada, mães agarram-se a mães. Chegou a hora de elaborar o luto. Para isso há páginas na internet. Programas de televisão. Grupos religiosos. Há mães compartilhando a experiência dolorosa em praças e auditórios. O problema é que o diálogo é restrito. Entendem o sofrimento umas das outras, mas não entendem o papel da família nesse processo. São capazes de amparar, enquanto nova tragédia constrói-se em suas próprias casas.

Sonho com o dia em que um grupo de adolescentes interditará a Frei Serafim. Faixas e cartazes chamando a atenção de tantos outros adolescentes. Alguns ficarão espantados. Afinal, não são mães chorando a perda dos filhos. São os próprios filhos anunciando: não nos perderemos mais.

Sábado, 18 de Abril de 2009

Caso de Polícia


No Brasil, agora é assim: bandido que tem uma boa condição financeira contrata logo o perito Ricardo Molina. O resultado é sempre o mesmo: a polícia, despreparada e precipitada, não soube trabalhar direitinho. Os laudos de Molina: taxativos, conclusivos e inquestionáveis (Ah, gradação, o que seria da ironia sem a redundância que tão bem sabes provocar!).

Depois do casal Nardoni, agora é a vez de o banqueiro Daniel Dantas recorrer ao miraculoso trabalho do professor, na área de Fonética Forense, da Unicamp. Penso que Daniel Dantas não foi feliz em sua decisão. O nome de Ricardo Molina, hoje, está mais associado a um sensacionalismo, desrespeitoso e imprudente, em relação ao trabalho de nossa perícia criminal. Se ele é um bom profissional? Duvido muito. Ético? Ele já deixou bem claro que não é. Nem precisamos pesquisar muito. Declarações ofensivas e debochadas do professor estampam as principais páginas dos principais jornais do país: "Os peritos do caso Isabella estão igual cachorro correndo atrás do próprio rabo". Influenciar a opinião pública, excitar a mídia e agendar cada vez mais palestras é, certamente, a principal habilidade de Ricardo Molina.

O juiz Fausto de Sanctis condenou Daniel Dantas a dez anos de prisão por corrupção ativa. O banqueiro, utilizando-se do ineficiente trabalho dos escudeiros Humberto Braz e Hugo Chicaroni, tentou subornar o delegado da Polícia Federal, Victor Hugo Ferreira. Agora, a mais nova arma do banqueiro, afirma, em laudo: "A atribuição das falas ao interlocutor Humberto Braz é um ato arbitrário, sem qualquer fundamento técnico".

Sem qualquer fundamento técnico? Paciência! A polícia brinca de investigar? É isso? É assim que funciona? Apenas o senhor Ricardo Molina assistiu a todas as aulas? E nas aulas o que lhe ensinaram? As conclusões beneficiarão aquele que contratou e remunerou - muito bem, diga-se de passagem - o serviço do perito?
Na condição de professor de literatura, invoco Edgar Allan Poe, Charles Dickens e Ruth Rendell. Invoco Agatha Cristhie, Hitchcock e Arthur Conan Doyle. Invoco a inteligência e a sensatez. Porque jamais a ficção pareceu tão verossímil. Porque, no Brasil, a inverossímil realidade já não satisfaz.

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Carpe Diem (?)


Sou professor de literatura há 12 anos. Convivo diariamente com centenas de adolescentes. Posso afirmar, sem nenhuma licença poética, que nos entendemos bem. Principalmente porque, na condição de adulto - por motivos quaisquer -, não esqueci que um dia já fui adolescente também.

Geralmente é assim: adultos não suportam a adolescência que, por sua vez, não suporta a infância. Conclusão: carrega-se a falsa impressão de concepção instantânea. Explicação: como se, ao abrir os olhos – Maravilhoso parto novo! -, o homem de vinte e cinco anos surgisse, aos vinte e cinco anos, sem tirar nem pôr.
Considerar o que somos, repudiando o que já fomos, resulta em estúpida postura arrogante e imediatista. Vislumbramos de tal forma o momento presente que não nos preparamos para o futuro e muito menos respeitamos as maravilhosas experiências adquiridas.

A adolescência aniquila qualquer possibilidade de sermos o que um dia os pais sonharam para nós – mesmo bem antes da concepção. O adulto é o reflexo desvirtuado da imagem perfeita – Egocêntrica! - do adolescente de outrora. É que em algum momento, por um descuido fatal, o espelho trincou.

Que mente sã ainda relacionará o ser adulto à estabilidade social? Quando verdadeiramente estáveis? Em qualquer etapa da vida esforçamo-nos para sobreviver. E sobreviver significa adequar-se. A ingenuidade, a rebeldia e a maturidade são apenas instrumentos de adaptação. Apenas nos comportamos, inconscientemente, como a sociedade espera que nos comportemos. Por isso mesmo adaptação não é – E jamais será! - sinônimo de estabilização.

Como eu poderia então, adulto e professor do ensino médio, rotular meninos e meninas, se habitam em mim todos aqueles que um dia já fui?
Como eu poderia então, adolescente e jogador de basquete, rotular meninos e meninas, se o que sou, ao escrever este artigo, será também um pouquinho de mim no instante seguinte?

Como eu poderia então, criança e super-herói, rotular meninos e meninas, se todos os dias as lembranças de erros e acertos surgem diante de mim, aos berros, fura-bolo em riste: você é humano!

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

O Teatro no Brasil


Não participo de uma produção teatral há alguns anos. Ando meio manco e desiludido. Pela primeira vez a ignorância de meu pai – “trabalhar de graça é perda de tempo, pagar para trabalhar é burrice” – parece fazer sentido. Não pelo trabalho em si. Mas pelo trabalho que dá, e acredito que não seja apenas no Piauí, convencer empresários e fundações (anti) culturais a investirem em projetos artísticos. O resultado: montagens medíocres. A fatalidade: um público desconfiado. A realidade (?): maravilhosos são os espetáculos com atores globais. A indignação: ais, suspiros, ais.

É que o teatro no Brasil já surgiu deformado. Uma desfiguração só. Doutrinário. Coube à Companhia de Jesus transformar peças teatrais em instrumentos de educação e catequese. Não confundir com as encenações gregas que visavam, através da dramatização, preparar, por exemplo, as crianças, para um amadurecimento saudável. Aqui, individualidades e anseios não eram respeitados. E ainda tem crítico que brada por aí que os autos de José de Anchieta são de orientação Vicentina. Seriam, se Gil Vicente, prematuramente, não ousasse questionar – o que importa se moralisticamente? – os mais diversos comportamentos sociais. Seriam, se Anchieta, corajosamente, produzisse textos engajados e compretidos com o seu tempo, como faria mais tarde, em seus sermões, o padre Antônio Vieira. Seriam, se o Brasil – a Ilha dos Papagaios – não fosse tão jovem e não se arrastasse às margens do Renascimento Cultural Europeu.

A supremacia do gênero lírico – durante os primeiros quatro séculos de vida do Brasil (leia-se Brasil oficial) – também atravancou de certa forma o desenvolvimento do gênero dramático no país. Se considerarmos que o gênero épico, a partir do século XIX, principalmente com o desenvolvimento do romance, cativava cada vez mais o público burguês, sobretudo o universo feminino, enxergaremos um teatro nacional tímido, que tenta despertar a atenção da burguesia fazendo-a sorrir da sua própria hipocrisia. Coube a João Caetano – e não a Martins Pena – numa época em que se encenava em barracões e tablados improvisados, profissionalizar o teatro brasileiro, através do incentivo ao mecenato e à subvenção estatal.

Já no século XX – sei que muitos ficam confusos assim como eu -, o descaso daqueles organizadores da Semana de Arte Moderna em relação ao teatro. Como é possível que um evento encenado (ironia cruel!) no Teatro Municipal de São Paulo, não tenha percebido a força da arte dramática enquanto grito de uma nova escola literária? Logo eles, os modernistas, que buscavam na realidade do cotidiano motivos de inspiração. Por que não foram capazes de, antropofagicamente, regastar os trabalhos de Tchekhov e de Antoine? De Stanislavski e de Meyerhold? Talvez porque não houvesse um dramaturgo entre eles. Antecipando-me a possíveis comentários a respeito da produção dramática de Oswald de Andrade, limito-me a explicar que as peças sequer foram montadas, senão décadas depois da fase combativa do movimento.

A partir dos anos 40 do século XX, a explosão. Bertolt Brecht, Tenessee Williams, Arthur Miller, Samuel Beckett, Jean Genet e Grotowski desdobram-se em Nelson Rodrigues, Jorge Andrade, Plínio Marcos e Ariano Suassuna. Em pleno século XXI, Ariano Suassuna, Plínio Marcos, Jorge Andrade e Nelson Rodrigues desdobram-se em tantos outros. Do Clássico ao Absurdo. Do Absurdo ao Clássico, o teatro brasileiro procura ainda (silêncio mórbido) construir uma identidade a partir de tantas outras identidades.

Domingo, 28 de Dezembro de 2008

O Aniquilador


Acaso

Aquela era a segunda vítima. Em apenas um mês. Se a primeira, uma adolescente magrinha, fora assassinada com quatro tiros certeiros: ora na cabeça ora no peito ora na cabeça ora no peito, o comerciante de 43 anos repousará ileso no fundo do Igaraçu. Mais cedo ou mais tarde, devorado pelos peixes – podridão só! – renascerá, eis a possibilidade, em uma margem qualquer, ou mesmo na rede de algum pescador.
Denílson continuará matando. Homens. Mulheres. Crianças. Ricos. Pobres. Bonitos. Feios. E a cada assassinato uma assinatura própria. Não cometeria o principal vacilo de um serial killer: determinar um padrão. Permitir o estabelecimento de um perfil psicológico. Alguns estudiosos sugerem que, inconscientemente, o psicopata quer ser capturado. As pistas, muito mais que desafios, seriam instrumentos deixados ali para facilitar o trabalho da polícia. Por isso mesmo, para driblar o inconsciente, o professor de literatura não afrontará os investigadores. Quanto mais aleatória for a escolha, quanto mais variados forem os métodos, menor a probabilidade de um crime ser relacionado ao outro. E assim, em intervalos de tempo imprecisos, seguirá feito um caçador bem treinado, tal qual o mais temido dos predadores, alimentando-se de tantos e quantos parnaibanos conseguir abater. Nulificar.

A adolescente magrinha

A menina estudava no Colégio das Irmãs desde o maternal. Por sorte as freiras reativaram o ensino médio. Não suportava a idéia de uma transferência para outra escola. O centenário do Colégio Nossa Senhora das Graças era o seu próprio centenário. Apegara-se tanto àquelas paredes que parecia ter testemunhado a construção de cada uma delas.
Agora só restava desfrutar os próximos três anos. Entrar para a universidade representaria a impossibilidade de estar ao lado dos amigos. Não acreditava naqueles discursos apaixonados que antecedem a separação. Sabia que nada seria como antes. Apenas fragmentos de lembrança.

O comerciante de 43 anos

O armazém ficava no cruzamento da Humberto de Campos com a Francisco Correia. O homem trabalhava sozinho. Quando precisava descarregar mercadorias mais pesadas contratava os estivadores que viviam fumando e jogando conversa fora pelas calçadas do centro comercial. Durante 14 anos estivera ali. Inclusive aos sábados. Só não trabalhava aos domingos, reclamava a esposa, porque não apareceria um cliente para espantar as moscas. Se não. Se não.
Fora sempre assim. Louco pelo trabalho. As refeições diárias eram apenas interrupções necessárias. Dormir: um desperdício. A vida não era ruim. Possuíam uma casa maravilhosa. Passeavam aos domingos. Não entendia o porquê de tantas queixas. Divertia-se ao ouvir as lamentações daquelas mulheres. Afinal, apenas mendigavam um pouco mais de atenção. Não relacionavam a vida tranqüila à sua ausência. Lastimavam como se acreditassem na possibilidade de estarem sempre juntos.

A adolescente magrinha

Aceitara, felicíssima, a carona. As amigas morreriam de inveja. Quem diria, logo ela, sentadinha ao lado do famoso professor Denílson. O magnífico contador de histórias. Nunca esqueceria, graças a ele, a aleijada Janet, de Robert Louis Stevenson. Muito menos o gato preto de Edgar Allan Poe. Agora estava ali, nervosíssima! A imagem, estampada na mochila, da RBD Roberta, cantava uma música romântica. Parnaíba nunca estivera tão bonita. Havia em tudo a estranha sensação de nunca mais.

O comerciante de 43 anos

Não abria o armazém há três semanas. Sequer saía de casa. Nunca estivera depressivo. Também jamais sentira o quão importante era a família. A esposa – fortaleza! – assumira todas as responsabilidades. Mal sabia ela que em apenas um mês o inferno revelar-se-ia ainda mais poderoso.
O comerciante acordou disposto naquele dia. Sentou-se à mesa para tomar café. Devorou o cuscuz de arroz quentinho. Percebeu a dor – quantas olheiras! – no rosto pálido da esposa. As idéias, ainda embaraçadas pelo sofrimento, tentavam reagrupar-se feito soldados após o tiroteio. Mas estava ali, pronta para a próxima batalha. E ele? Suportaria mais uma baixa? Não. Indubitavelmente.

Acaso

Matar pai e filha não fazia parte do plano. Caos. Imprevisibilidade. Denílson na cadeia. Quando estava prestes a cometer o próximo assassinato, o quebra-cabeça fora montado pela polícia. Restava apenas compreender a motivação dos crimes. Estaria o professor apaixonado pela esposa do comerciante? Matou porque o comerciante descobrira a identidade do assassino da filha? A mulher seria a próxima vítima?
Não. Não. Não. Apenas um acidente fixando lógica na incerteza do abismo.

Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008

Infantilidade



Há alguns anos passear pelas ruas de Parnaíba – pilotando uma barra circular vermelha (sem garupa!) – era uma tarefa cotidiária prazerosa. Afinal, transportar as namoradas no confortável (ironia!) varão da bicicleta rendia lá suas recompensas: cheirinhos e beijinhos no cangote da moça... roçar de joelhos no bumbum macio, nas coxas macias... (sensação maravilhosa de não dever nada a ninguém).

Senti-me invadido por essas lembranças graças a um encontro com certo aluno do ensino médio. Ao entrar em um ônibus, na Miguel Rosa (atualmente moro em Teresina), fui recepcionado com o seguinte comentário: professor ganha pouco mesmo... cadê o carro, Ajosé? O carro estava na oficina. Revisão de final de ano. Foi o que respondi. Rapidamente. Precisamente. Indignado. Não com o questionamento do aluno. Com o medo que me invadiu a alma de ser confundido, naquele instante, com alguém que precisa “pegar” ônibus todos os dias. Devo, inclusive, ter acrescentado: espero receber logo o MEU CARRO. Tom de saudade na voz: não vejo a hora de estar, novamente, com o MEU CARRO. Um pouco de esperança: amanhã, se Deus quiser, a oficina entrega o MEU CARRO.

O que eu não sabia, até então, incomoda-me demasiadamente. Em que(m) me transformei? Em que pedacinho do universo ficou perdida a humildade, sustentáculo do que havia de melhor em mim? Desde quando me tornei arrogante? Não será arrogância, prepotência, atrevimento – demência! -, sentir vergonha de estar aqui ou acolá? Estarei ensinando para os meus filhos tamanha imbecilidade? Serei professor de lições perigosas como as que assimilei, mesmo que subliminarmente?

Ainda não sei. Sei bem muitas outras coisas. Tipo: não desperdiçarei tempo precioso da minha vida reprimindo o que há de verdadeiro em mim. E o que há de verdadeiro em mim é aquela criança que perambulava pelas ruas do bairro Nova Parnaíba. Gritando. Cantando. Amando cada tiquinho de sonho materializado em experiências inesquecíveis. É aquela criança da Vieira da Cunha, sempre indignada com qualquer possibilidade de preconceito e discriminação.

Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

JEOSÁ


A impossibilidade de TER
O que se não pode SER
A trivialidade de SER
O que se não pode TER.

Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

Ataúde


O espelho reflete o reflexo do reflexo do poeta
O poeta não enxerga a si mesmo
O que se imagina ser o poeta é apenas sombra

Distorcendo as paredes alvas que amparam o altar
Umidade escorrendo - entrededos – pelos corredores vazios
Sinos de angústia anunciando a derradeira procissão.

Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

A Ciência da Paixão



Por que invadir um apartamento e reduzir à condição de refém a mulher amada? Qual a explicação para o comportamento da adolescente que desiste de viver após o termino do relacionamento? Por que desperdiçar tanta energia na tentativa de aprisionar quem já não pretende desfrutar a nossa companhia? Se a paixão é apenas um dos muitos artifícios utilizados pela natureza para que continuemos procriando, não seria menos cansativo, psíquica e fisicamente, identificar imediatamente um novo parceiro para acasalar?

Não é tão simples assim. Principalmente se o “outro” nos abandonou. O sofrimento é inevitável. Prolonga-se por vários meses. Principalmente se alimentado pela baixa auto-estima. Enquanto o indivíduo não elaborar por completo o luto, dificilmente compreenderá o término do relacionamento. Desejo de morte, auto-piedade, vingança, amor e ódio, enquanto confusão mental, podem, inclusive, levar o “apaixonado” à depressão. O médico e escritor Moacyr Scliar resume bem a questão: “as paixões reprimidas, contrariadas ou mal-sucedidas adoecem as pessoas”.

Para alguns pesquisadores a depressão tem seu lado positivo: chegou o momento de encarar-se a si mesmo. Momento de enfrentar o problema e preparar-se para o recomeço. Momento de reorganizar o cérebro já que a produção de dopamina aumenta consideravelmente logo após o término do relacionamento. Dopamina sim! A paixão desperta as mesmas áreas cerebrais responsáveis pela sensação de bem-estar. O que sentimos quando olhamos para a fotografia de quem amamos é o mesmo que sentimos quando estamos diante daquela comida saborosa. Amar, pensam alguns cientistas, é apenas a motivação para alcançar o que se deseja. E quando o objeto do desejo parece inatingível, o organismo, ironicamente, produz uma maior quantidade de dopamina, aumentando ainda mais a frustração. É o cérebro que primeiro nos força a lutar pelo resgate da relação, para que depois, resignados, entendamos que nem todos os sonhos serão materializados.

Entre a frustração e a resignação, a ameaça. Nos mamíferos, por exemplo, a ausência da mãe (objeto desejado), provoca pânico nos filhotes. Seria imprudência não acreditar que os seres humanos carregam resquícios mentais dessa experiência. Furiosos, confusos e assustados podemos, se não cometer suicídio, destruir aquilo que mais cobiçamos. Infelizmente o amor não anula o ódio. Infelizmente amor e ódio são bem menos contraditórios do que se supõe.

Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Freud Explica!


Duas obras literárias indicadas, enquanto leitura obrigatória, pela Universidade Federal do Piauí, servirão de roteiro para a discussão que ora proponho.

Enquanto Gil Vicente nos apresenta uma visão maniqueísta e preconceituosa do ser humano, O. G. Rego de Carvalho, bem mais sensato, abandona a caricatura vicentina e constrói personagens complexos e imprevisíveis. Afinal, não se pode mais conceber uma visão dualista, limitada e superficial de homem. Ninguém, por mais que se esforce, conseguirá ser, durante a vida inteira, a personificação do Mal. Muito menos a alegoria do Bem. Há em cada um de nós, acompanhando-nos sempre, um anjinho e um diabinho. Vozes insistentes – convincentes! -, despertando sentimentos, manipulando comportamentos.

Na peça teatral Auto da Barca do Inferno tudo é muito simples. O indivíduo, de acordo com suas atitudes em vida – atitudes que permanecem grudadas, feito parasitas, em cada personagem -, embarcará para o Paraíso ou para o Inferno. Obedecendo a critérios estabelecidos pela Igreja Católica, Gil Vicente manda para a “Ilha Perdida” corruptos, materialistas, arrogantes, exploradores, mentirosos e hereges. Não há aprofundamento psicológico. As personagens são julgadas e condenadas de acordo com a noção convencional do que é certo e do que é errado.

Bem diferente é a visão de mundo do escritor piauiense. Para O. G. Rego de Carvalho: “Somos todos inocentes”. Exemplifico: Raul, protagonista da obra, mesmo apaixonado por Dulce, envolve-se com outras mulheres. Uma delas, Pedrina – a filha do sacristão -, engravida do rapaz. Estamos na primeira metade do século XX. O neto de Joaquim Ribeiro é apenas cria de uma sociedade patriarcal. Namorar Maria do Amparo e transar com Pedrina não lhe desestrutura o coração. Raul aprendeu, desde cedo, que mulher foi educada para cuidar da casa, do marido e dos filhos.

Se Lindemberg, o assassino de Eloá, fosse uma personagem criada por Gil Vicente, antecipar o seu destino não seria uma tarefa árdua. O mais novo habitante do Inferno, certamente ocuparia um lugar de destaque ao lado do Satanás. Eloá – a vítima! -, repousaria nos braços de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Como se fôssemos apenas um recorte daquilo que de fato somos, protestaria O. G. Rego de Carvalho.

Domingo, 5 de Outubro de 2008

Linha de Passe


No cinema. Apenas. Seis. Pessoas. Na tela. Transbordando. Talento. Walter Salles e Daniela Thomas. A cidade, em ritmo de eleição, não pode parar para assistir a um filme. Reflito. Ainda mais se a produção é nacional. Ironizo. E com tantos shows – nacionais! – acontecendo por aqui não sobra um tostãozinho para tamanha extravagância. Concluo.

Meus alunos assistirão “ao”! Grito ali mesmo na sala. Mas é um grito silencioso. Desses gritos que permanecem na alma. Feito o “Último Número”, de Augusto dos Anjos: “Bradei: — Que fazes ainda no meu crânio?/E o Último Número, atro e subterrâneo,/Parecia dizer-me: “É tarde, amigo!”.

Não, não é tarde. Discordo do poeta. Centenas de adolescentes acotovelando-se. Loucos por um melhor lugar. Ansiosos pelo espetáculo. E nem precisarei oferecer pontos na prova. Estarão ali, sentadinhos e atentos, porque é preciso, sentadinhos e atentos, encarar o quão difícil é ser – humano.

Ao final, perguntarão. Por que Linha de Passe, professor? Respondam vocês mesmos. Por que a vida é como um jogo de futebol? Por que na vida precisamos saber jogar para sobreviver? Por que viver não é para qualquer um? Por que mesmo os que sabem jogar podem não ser escolhidos? Porque os brasileiros vivemos em uma linha fronteiriça imaginária. Confusos. O apito do juiz amedronta. Afinal, vislumbramos a possibilidade da repressão. Há muitos uniformes afirmando o quão errados nos comportamos. Há toda uma torcida adversária ameaçando-nos com pragas que nos conduzirão ao erro. Ou não.

Enquanto os alunos não vêm. Somos. Apenas. Seis. Enquanto as vozes de meninos e meninas não ameaçarem o vazio. Seremos. Apenas. Seis. Mas quantos seis de nós divulgarão o filme! Quantos seis multiplicarão por seis que multiplicarão por seis e mais seis e mais seis! E de seis em seis, eis um milhão.

Um milhão de apertos. No peito. Porque o filme é tenso. Deixa-nos tensos. A qualquer momento a desgraça. Paira sobre cada personagem a mão ameaçadora do destino. O destino de cada um de nós. Enquanto, nos limites de uma linha de passe, rogamos ao bom deus que não estejamos impedidos.

Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

Precoce


Não pretendo

Satisfazer

Em mim

A estranha necessidade

Nesta idade

De amar o desenho infantil

Projeção de afetos

Transferência de valores

Quando o que se deseja

É o sonho indizível da abnegação.

Terça-feira, 15 de Julho de 2008

Esquizofrenia



Não costumo escrever sobre questões políticas. Mesmo sabendo que o próprio ato de escrever já se constitui em atitude política. Forçada. Conceitual. Subliminar. Inconsciente. Sou daqueles seres humanos quietinhos que ficam ainda mais pequeninos quando o assunto é política, religião e futebol.

Fui candidato apenas uma vez – época da universidade – porque me convenceram de que eu era a pessoa ideal para assumir a secretaria de cultura do diretório acadêmico. E – principalmente! – teria liberdade para desenvolver meu trabalho longe da mesquinhez, sombra poderosa que nos acompanha enquanto administradores do bem público. Bobagem. Consciência tardia. Depois da vitória é que percebi que nem mesmo os artistas escapolem daquela gente, de estrutura perversa, capaz de tudo para alcançar e permanecer no poder.

Por que então romper o silêncio depois de tantos anos? Muito simples – ou por demais complexo! -. Se até recentemente a esfericidade do comportamento humano, metaforizado por medos, angústias e desejos representavam para mim uma espécie de pulsão – que não era de vida e muito menos de morte -, disparador do que a intelectualidade mambembe rejeita e chama de inspiração, hoje – grito em confissão! -, a entrevista de “respeitadíssimo” político piauiense para um programa de televisão local desencadeou uma revolução violenta em meus pensamentos e princípios. Se não atirei pedras no aparelho de tevê foi porque o notebook também estava ao alcance das mãos.

Que a polícia federal tem trabalhado bastante é um fato. Que nossos “homens ricos” têm dado bastante trabalho para a polícia federal também é um fato. E de fato o que se percebe é que a corrupção vem se tornando – agora é oficial! – o principal crime federal e estadual e municipal e, acrescentemos, visceral. O banqueiro Daniel Dantas foi preso. Foi solto. Foi preso. Foi solto. Comentário do senador piauiense: se ele é bandido, pelo menos é um bandido que gera emprego e renda. Comentário do senador piauiense: as atitudes do delegado que investiga o caso são atitudes esquizofrênicas.

De acordo com a CID-10, “os transtornos esquizofrênicos são caracterizados, em geral, por distorções fundamentais e características do pensamento e da percepção e por afeto inadequado ou embotado”. Mais adiante: “Dessa forma, o pensamento se torna vago, elíptico e obscuro e sua expressão em palavras, algumas vezes incompreensível”. O Aurélio também esclarece: “a esquizofrenia é uma afecção mental caracterizada pelo relaxamento das formas usuais de associação de idéias, baixa afetividade, autismo e perda de contato vital com a realidade”.

Perda de contato vital com a realidade! Tadinho do delegado e de todos nós. Daqui a pouco surge um novo Simão Bacamarte (peço ao leitor que entre em contato com a obra O Alienista, de Machado de Assis) e o Brasil, transformado em hospício, internará aqueles que não se sujeitam à enganação. O raciocínio será o seguinte: se os corruptos correspondem à maioria, ser corrupto é ser normal.

Louco é o juiz que manda prender. É o delegado que investiga. É o homem que exige os seus direitos. É o telespectador que não se deixa ludibriar. É o repórter que denuncia e por isso mesmo será processado. Loucura é invadir a casa do senhor Celso Pitta e filmar toda a operação. É não aceitar suborno. É algemar banqueiros e empresários. É deixar de lado a ficção e a criação de personagens – bem mais humanos! – para desabafar.

Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

Réquiem


A caminho do velório de H. Dobal – o carro abarrotado de alunos -, questionamentos. Professor, “H” é de Henrique? Não, é de Hindemburgo. Risos. Menino é capaz de brincar até com o nome do poeta. Não me incomodei porque sabia que Dobal – divertido – já sorrira várias vezes da singularidade do próprio nome. Professor, ele era o melhor poeta piauiense? Para boa parte da crítica, sim. Mas existem escritores como Torquato Neto, Mário Faustino e Da Costa e Silva que permanecerão sempre em primeiro lugar nesse ranking desmedido, estapafúrdio e inútil. E digo mais: o artista, imortalizado pela arte que produziu, sempre será. Não importa se o melhor ou o pior. O engajado ou o desengajado. O universal ou o regional.

Na Assembléia Legislativa, uma surpresa. Uns vinte gatos pingados velavam o poeta. Professor, pensei que ele fosse mais conhecido. Suspiro. Silêncio. Desculpa qualquer: é que estamos na hora do almoço. Ainda vem muita gente. Muita gente. Escritor parece que só é valorizado depois de morto! Não é verdade, professor? A imprensa está aqui. Acham mesmo que estariam filmando o velório de um estranho? O Kaio tem razão, pessoal. E é transmissão ao vivo! Enquanto a discussão a respeito da popularidade de H. Dobal prosseguia, limitei-me a provocar a memória e a resgatar lembranças escassas dos poucos momentos em que estive com Dobal.

Massageando as mãos geladas do poeta e tentando reconhecê-lo, escondidinho sob a máscara estampada da morte, só conseguia pensar no sorriso espontâneo e no olhar emocionado que nem mesmo a doença fora capaz de destruir. Muitas vezes fiquei intrigado com a energia positiva daquele homem que percorria a cidade em sua cadeira-de-rodas, deslizando macio pelos corações de cada um de nós, distribuindo, além de versos maravilhosos, simpatia e compreensão.

Afinal, estávamos ali. Salão Nobre da Assembléia Legislativa. Resignados. Declamando poemas. Contemplando o que ainda havia de matéria em H. Dobal. Os sentidos apurados. Percebendo, sinestesicamente, não o abafado das velas, mas “os campos do verde plano/todo alagado de carnaúbas”.

 
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