
Escreverei sobre a fragilidade de meu pai. Meu pai enquanto representante de todos os pais deste mundinho familiar que nos habita. Também assumirei a angústia dos filhos – impotentes – diante do tempo, adversário poderoso.
Na verdade, a crônica de hoje não é uma prestação de serviço. É mais um desabafo. Uma comunhão. Um desembrulhar de idéias que me assombram há alguns meses. Recorro às palavras para materializar – tentativa vã – o aperto no peito. A respiração difícil. As terríveis insônias. Apelo a você, leitor, capaz de apreender o medo – saudade antecipada – de perder alguém tão querido, um tiquinho de paciência e resignação. A mesma paciência e resignação que eu não seria capaz de oferecer. Nadinha de mimos por enquanto.
Papai envelheceu dez anos em dois anos. Como não moramos na mesma cidade, as visitas são esporádicas. O que me permite maior percepção da ruína instalada em seu corpo. Esporadicidade que nos tem distanciado além da distância geográfica. Ao telefone, instala-se rapidamente a função fática. Feito dois estranhos resmungamos bobagens. Calor, chuva e escândalos políticos ocupam boa parte da conversa. Há bastante silêncio entrecortando o falso diálogo. Ao desligar, desfruto a frustração, companheira dos espíritos medíocres.
Como fazê-lo perceber sentimentos tão fortes, se não há nobreza em minhas atitudes? Sou filho único. E mal consigo retribuir o carinho e a atenção recebidos. Imagino o quão sozinho deve ser o meu pai. E sofro (Sabe aquele sofrimento bom?), imaginando-me em seus braços. Sofro porque há muitos anos tenho me fechado para o homem que me embalava todas as noites. Postado ali, pertinho da porta, empurrava, delicadamente, a rede. Cantarolava baixinho as mesmas canções.
Moramos durante dez anos em um pedacinho de casa. Parnaíba. Rua Dr. Vieira da Cunha. Naquela época, meu pai era um mágico poderoso. Transformava o minúsculo corredor que dava acesso à cozinha em nosso campinho de futebol. O dinheiro era pouco (Ser mago não rendia lá essas granas!), mas papai sempre dava um jeito de retirar da cartola histórias que me encantavam.
Muitas vezes severo, permanecia atento a todos os meus movimentos. Entre um carão e outro, olhava-me com olhos afetuosos de compreensão. Mamãe confidenciou-me, em certa ocasião, as lágrimas de meu pai. Seu Edimar chorava após uma discussão comigo. Soluçava bastante. Sentia na pele, da maneira mais terrível, as possibilidades e impossibilidades do amor.
Ninguém mais, leitor, terá a capacidade de me conduzir pelas ruas de Parnaíba com tamanha presteza e dedicação. A cadeirinha sobre o guidão da bicicleta fora responsável pelo meu primeiro deslumbramento a respeito da beleza dos seres e das coisas.