Infância

Infância

quinta-feira, 10 de março de 2011

DESAFOGO


Aqui estou eu

Perdido em mim

Esboço de tudo

Aquilo

Que entendi

Quando já não havia

Nem mais se escrevia

Esperança


Mas ardia

A cada dia

Há dias

O que somente agora

Agoirenta

Repousa no colo

No dolo

Esperança

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Platônico




Não comparecerei ao julgamento
Não reconheço a autoridade do verme
Amo metonimicamente o augusto
Mas amaldiçoo a frustração de medeia.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Jabuticabas


Olhos de escuridão. Oitos olhos de escuridão. Dois olhos de escuridão em cada cantinho do quarto de Jeosá. Casca negra perscrutadora. De que importa a brancura da polpa? O negrume impossibilita o trespassar da luz. É a noite passeando durante a noite e fazendo-se notar. Clarear. Surgir enquanto brilho intenso na ausência da luz.

Donde vêm aquelas imagens? Por que encaram Jeosá? Não será possível manejar uma espingarda de canos duplos paralelos sem que oito globos de luz e sombra repreendam as atitudes do professor?

Mesmo com as pálpebras ajuntadas. Mesmo submerso em lágrima-lençol. Mesmo tentando visualizar-se cadáver estendido na cama-sangue após a explosão. Mesmo assim. Haverá olhos de escuridão. Oito olhos de escuridão. Dois olhos de escuridão em cada cantinho do quarto de Jeosá.

Fantasma-fantasia agourando aqueles últimos instantes. Mas não há como desistir. Corrigir. Prevenir. Logo a treva submeterá a treva. A erva entorpecerá a erva. Fumaça e fogo. E Jeosá não mais existirá.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Causar a morte de


Do barranco para o acostamento. Do acostamento para a BR. Azáfama irresponsável. Vira-lata numa correria-correria desmedida. Pé no freio. No freio. Freio. Felizmente não há outros carros. Apenas um cachorro suicida. O impacto inevitável. E carne e osso e sangue. Enquanto os pneus protestam - aos berros - contra o asfalto.

Inevitável. Acidente. Causalidade. E quantos pensamentos intensos-tensos em tão curto espaço de tempo. Não perder o controle do carro. Manter firme o volante. Não permitir que o automóvel deslize para o lado oposto da pista. VÁCUO. Agora o mundo de cabeça para baixo. Dezenas de pernas movimentam-se de um lado para o outro. O carro sacoleja-sacoleja. Dezenas de pernas (as opiniões são as mais diversas) discutem-discutem a minha libertação.

Contrição. Por que tanta pressa de (não) chegar? Em meio a ferragens e carne e osso e sangue é muito fácil perceber a estupidez e a precipitação. Quando já é tarde. Quando o corpo machucado depara-se com o não-se-ter-mais-nada-a-remediar. Quando a única esperança são dezenas de pernas que mal conseguem equilibrar-se, feito criança dando os primeiros passos. Quando não há consenso (bom senso). Apenas o comando acanhado de vozes que nem sabem realmente o que fazer. O que fazer?

Aguardar. Vigiar. Acreditar que alguém será capaz de desenrolar aquele intricado novelo em que se metera por sua própria conta e risco. Por enquanto é ficar ali quietinho. Comportadinho. Não atrapalhar. Pernas e vozes continuam trabalhando (faina incansável). Certo ou tarde alcançarão o cadáver de Jeosá.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Percussão


Tambores.

Pés pesados contra o chão de terra batida. Contorce-contorce de corpos espalhando-se (espelhando-se) pelo salão. Uma gritaria-gemido maltratando as cordas vocais de fêmeas descontroladas. Olhos salientes-silentes enxergando o que não há.

Tambores.

Mãos naquele movimento vertical-horizontal-vertical de não parar jamais. Torsos despidos-suados pulsando agitados balouçando colares. Cabeças-pescoços-membros descompassados e febris. Enquanto fumaça e vermelhidão embotam o tino-senso-juízo da gente-turbilhão.

Tambores.

Menina esquálida-deitada-amarrada. Apenas um fio de pano esconde (não esconde) a vulva e os pêlos dourados. Mamilos rijos-firmes-enormes encaram a cara de seus agressores. Pernas arqueadas-surradas-esfoladas. Braços sem ânimo. Sem vida. Sem nada. Correntes de carne na carne cansada.

Tambores.

Batuque-batuque. Aroma-aroma. Sabor-sabor. Ofusca-ofusca. Calor-calor. Rasgando o corpo da menina esquálida-deitada-amarrada, eis que emerge - a partir do diafragma - uma velhinha simpática-tranquila-apática. Sequer percebe que aquele estranho parto separou de vez o tórax e o abdome da adolescente.

Tambores.

Os sentidos captam a morte da menina esquálida-deitada-amarrada. Há um batuque-batuque. Aroma-aroma. Sabor-sabor. Ofusca-ofusca. Calor-calor de ruína no ar. Agora a cuiambuca cheinha do sangue da virgem-menina alimenta a gente-indolente – gotas de vermelho nos lábios. Nas mãos. Nas roupas. No chão.

domingo, 17 de outubro de 2010

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ignorantim



Não sei bem o que sou. Nem o que pretendo ser. Crescer. Padecer. Mais parecer esboço do esboço. Tamanho esforço e ainda não ter. Aparência. Essência. Aquela dormência na alma. Calma, Jeosá. Adormeço. Esqueço. Ofereço (me) a (o) sacrifício. Malefício. Vício necessário. Prazer ao contrário. Espelho inverso refletindo o reflexo do que jamais alcançarei. Ser. Crescer. Padecer.

De volta à escrivaninha. Os objetos de sempre, sempre observando. Curiosos. Espreitam o novo texto. O silêncio de Jeosá. Mãos macias confeccionando uma nova (?) combinação de palavras. O desabafo de todas as noites. Ora fragmento. Ora ideia. Ora ideia incapaz de materializar-se enquanto expressão. Dimensão. Tempo. Espaço. O fracasso do fracasso não seria libertação?

Pois não. Divagação. Quando o caminho estreito estreita e mesmo assim seguimos em frente. Não há passagem. Mesmo assim o poeta caminha pelo terreno rumo ao abismo de não se ter mais para onde ir. Refletir. Concluir. Permitir-se. Perder-se. Ofender-se. Ninguém compreende por que um homem sentado diante de um computador encara o teclado e digita e encara o teclado e digita letra após letra. Compreenderiam se as letras, metáforas de lágrimas borrassem as minhas mãos?

Sigo escrevendo. Antevendo frustração. Resignado diante da impossibilidade de exprimir o que brada dentro de mim. Ignorantim. Arlequim cínico. Personagem inadequado para a representação de uma tragédia. Nem Édipo. Nem Hamlet. Apenas Jeosá. O clown. O grotesco. Existindo. Exibindo. Ordinária representação.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sonetos de Camões

Já está no ar: CPI DA LITERATURA, com o
professor Ajosé. No primeiro programa, pequeno documentário sobre
Camões, autor indicado pela UESPI.

Assista:

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sem rumo (ao) certo



Dissertar a respeito de. Argumentar. Contra-argumentar. O quê? Por quê? Afinal o vazio não repousará enquanto silêncio? Há sempre o dito. O não dito. O bendito. Maldito escritor. Deslizando a pena-teclado sobre o papel-monitor. Trabalho limpinho. Apurado. Asseado. Tratando de. Quê?

Assunta-se o de sempre todos os dias. Ladainha. Lengalenga. Suposição. Contradição. Aforismos que se perdem na escuridão imensa. Imensidão. Ali um conceito. Aqui um desabafo. Bem acolá uma sugestão. Indigestão. Precisão de. Sossego.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Atrevimento


Desdém. Soberba. Presunção. Arrogância. Pedestres desafiando automóveis. Imprudência. Tolice. Idiotia. Precipitação. Delirar feito Ícaro e despencar de um ego-altura-notável. Vaidade. Bazófia. Filáucia. Orgulho. Perceber-se um império esquecendo que os impérios certo-tarde-cedo, arruinados, desaparecerão.

Sou professor de literatura há 15 anos. Adoro o meu trabalho. Cultivo uma paciência poucas vezes abalada pelo comportamento arredio de discípulos “psicopatinhas”. Relacionando autores, obras e características das mais diversas escolas literárias ao cotidiano dos alunos, consigo estar juntinho-pertinho-coladinho da maioria. As experiências dos “meus” adolescentes tornam-se, constantemente, maravilhosos espetáculos (desabafos) durante as aulas.

Apenas não tolero a ignorância. O não querer pagar-responder-assumir-encarar provoca em meu espírito, tão afeito à harmonia, uma explosão-destruição jamais vista em qualquer guerra de até então. Pois não. E assim, mais parecendo um desses soldados matar-ou-morrer, armado do mais sofisticado instrumento de provocação, disparo argumentos que sequer atingem qualquer coisa que seja inimigo ou civil inocente.

Camarinhas de sangue anunciam meu corpo enquanto único corpo ferido durante o combate. Maldita consciência que me conduz à reflexão. Compreender o quê? Conversar com a coleguinha, atrapalhando o andamento da aula, tudo bem. Mas sentir-se ofendida-constrangida ao ser interrompida pelo professor é um filme de terror daqueles filmes de terror em que todos os mocinhos são assassinados – e com requintes de crueldade.

Assim fui afrontado por uma aluna da segunda série do ensino médio:

- Eu faço o que quiser. Onde quiser. Quando quiser.

O leitor é capaz de enxergar-imaginar a minha cara de bobo? E a postura deus-meu-o-que-digo-agora? Como enfrentar alguém tão poderoso? Adversários onipotentes não constam do catálogo de adversidades elaboradas, estrategicamente, para estressar o professor. Muito menos há em sala de aula um mural com respostas selecionadas especialmente para ocasiões dessa natureza.

Na condição de quem não faz o que quer, onde quer e quando quer, conduzi a moçoila à coordenação. Regras são regras. Deixei-a sentadinha – olhos esbugalhados amaldiçoavam o professor e todos os filhos do professor. Retornei para a sala. Contrariado. Desanimado. Encerrar a aula, dez minutos antes de tocar o sinal, foi o máximo de liberdade-revolta que ainda consegui manifestar-desfrutar.