
Brig(AD)os
Se(PAR)ados
Não há
Sexo
ou
Nexo
Novamente a loucura
O ciúme que angustia
O medo de perder
Ou ter perdido
E despertar (do sonho)
E descobrir (o pesadelo)
De ela não ser
Ou ser (o castigo)
O que não redime
Pune
O que não ama
Aterroriza
O que não satisfaz
Destrói
De ela não ser
Ou ser (o anjo)
O que mitiga
Enobrece
O que encanta
Afama
O que purifica
Incendeia.
Se o professor de literatura não for capaz de estabelecer um vínculo entre aluno, obra e autor, as aulas, acreditem, serão medíocres e desestimulantes.
Antonio José Fontinele
Aula de Literatura: enquanto alheamento do espírito, reflexão.
Antes de começar a digitar, vieram-me à lembrança grandes escritores que convivem comigo desde o dia em que descobri na leitura a mais perfeita de todas as fugas. Compreendam: ler é ao mesmo tempo abandonar a mediocridade de todas as coisas e sentir na pele e na alma o quão medíocre somos os homens. E não poderia deixar de ser assim. Uma crônica literária. Metalinguagem pura. Intertextualidade do princípio ao fim.
Minha primeira (intensa) experiência literária aconteceu por volta dos doze anos de idade. Epifania. A biblioteca do SESC era o meu passeio de todos os dias. Assis Brasil. Fontes Ibiapina. Graciliano Ramos. Carlos Drummond de Andrade. Gabriel Garcia Marques. Mário Vargas Losa. O Inconfundível Machado de Assis. Devo a eles a minha paixão pela palavra e a minha embriaguez (ah, estados alterados de consciência!). Devo a eles personagens, enredos e versos que fizeram de mim professor de literatura. A minha missão: divulgá-los. A minha missão: desmitificá-los. A minha missão: arrancar a máscara de velhos chatos imposta por professores velhos e chatos (quanta crueldade com os meus escritores!). A minha missão: fazer do cotidiano instrumento de compreensão da realidade. Mimese. Não importa onde moro. Não importa quem eu (penso que) sou. Quantos Romeus não estarão assistindo às minhas aulas. Quantas Capitus não estarão agora mesmo lendo este desabafo. Quantos Riobaldos não estarão confusos porque não compreendem ou aceitam sentimentos tão profundos. Quantas frustrações ou conquistas não se confundem no instante em que uma página é vencida. Catarse.
Professor, o que quer dizer epifania? Leia Clarice Lispector.
E Mimese, significa o quê? Aristóteles.
Catarse já é molecagem, professor. Satisfação.
Edgar Allan Poe, em suas Histórias Extraordinárias, conta-nos a aventura de um homem que sofria de catalepsia (caracterizada por extrema rigidez muscular). Ou seja, o indivíduo ao desmaiar mais parece que morreu. Ora, se no conto de Poe, uma sepultura é metodicamente construída para que o homem não seja enterrado por engano, aqui mesmo em Parnaíba, litoral do Piauí, no bairro São José, o defunto sentou no caixão durante o velório. Dizem que não ficou um vivente. Nem os parentes do Lázaro. Já Fontes Ibiapina, em seu Palha de Arroz, nos apresenta a louca Genoveva (Peixe Podre). Casada com Pau de Fumo, a mulher enlouquece após a morte da filha. Disso eu sei. Mas não sei (eu que vivi no Bairro Nova Parnaíba) quem era de fato Tia Laura. Muito menos conheço a história do Papagaio do Cu Pelado. Por que este senhor usava algodões enfiados no nariz? Por que aquela mulher tão pequenina ficava irritada quando gritávamos Tia Laura, cadê o bode? E, finalmente, como desvendar os mistérios do Porto das Barcas sem ter lido Beira Rio, Beira Vida? Então. Então.
Quando José Felipe acordou – naquela manhã de janeiro de 1975 - o que havia de José Felipe era apenas a cabeça (E o pescoço!). Denotativamente falando, não restara nadinha do corpo. Sobre a escrivaninha, os objetos de sempre. Arrumadinhos. Nada de sangue, ou qualquer sinal de luta. Tudo muito organizado. Como se o crânio repousasse toda a vida ali.
Até que os membros não fizeram tanta falta. Doentinho, chegara a dizer que seus membros eram inferiores e inferiores. Galhofeiro, o professor brincava ao se referir ao pênis que, segundo ele, não chegara a ser um rapaz viril.O tronco também não era lá essas coisas. Camões servindo feito uma luva: “Que mal me tirará o que eu não tenho?”.
O que incomodava de verdade – José Felipe explicava aos curiosos que não saíam do quarto – era a sensação dos pés e das pernas e das coxas e das mãos e dos antebraços e dos braços. Quase rolara algumas vezes por causa de movimentos bruscos e inconseqüentes. Algumas vezes lançava o seguinte questionamento: só porque não vejo minhas mãos não significa que não estejam aqui. Perturbação.
O professor morreu em fevereiro. Algumas impossibilidades fisiológicas tornaram sua existência algo no mínimo extravagante. Mas a fortuna que a família imaginava lograr da ciência jamais chegou. Naquela fúnebre manhã carnavalesca o que havia na escrivaninha era apenas um espaço de área finita onde outrora havia o gênio de José Felipe.
Há na escuridão o incontido desejo de ser luz. Assim blasfemava Jeosá enquanto riscava mais um fósforo. Se mil velas no quarto, apenas uma queimava. Porta fechada. Janela fechada. De onde viria o sopro? De alguma fresta, talvez. Ou do próprio inferno – portões escancarados em lamentação - , ou de qualquer fantasma zombeteiro e desocupado, ora ocupando-se em tarefas inúteis.
Parnaíba era assim mesmo. Consolava-se. Enquanto chuva, negrume. Paciência. Impacientava-se. O cheiro da pólvora, insuportável. Preferia não deitar. Fosse defunto, tudo bem. Mas não repousaria, alucinado, no próprio velório.
Quem esbanjaria tempo pranteando-lhe a matéria? Joane não apareceria. E de que vale morrer, se nem mesmo os mortos desejam a minha companhia? Mais um fósforo. Frustração. Apenas sombras contorcendo e retorcendo e gemendo a dor de todas as dores que somente a solidão é capaz de aprontar.
Se luz, seriam outros (os sentimentos). Mas a chama titubeava bruxuleante. Sentadinho, entre o guarda-roupa e a escrivaninha, Jeosá deslocava a cabeça para frente e para trás, enquanto os joelhos tocavam o peito de tão diminuidinho que estava.
Quando a mãe, por volta das dez horas da manhã, entrou no quarto - novecentas e noventa e nove velas acesas -, Jeosá não existia mais. Esparramado na cama, ao lado de uma espingarda de canos duplos paralelos, havia um homem. Mas aquele homem não era o professor de literatura. O professor traspassara o espelho feito espírito de luz.
Houve uma época – e que época! – em que certo governador, em que certo reitor, tiveram a brilhante idéia de eliminar, enquanto prova de vestibular para admissão na Universidade Estadual do Piauí, as disciplinas Redação e Literatura. Fácil – ou difícil - de entender: o candidato poderia disputar vaga em qualquer curso, de qualquer área, sem demonstrar habilidades de escrita, leitura e interpretação textual. Qualquer indivíduo que tivesse a hiper, mega, super capacidade de pintar corretamente o gabarito – tchan!- poderia matricular-se – desde, é claro, que alguns idiotas menos preparados no quesito “marque a alternativa A, ou B, ou C, ou D, ou E cometessem vacilos terríveis.
Enquanto professor de literatura fiquei indignado. Se não bastassem as brincadeiras dos alunos e demais professores – meu emprego estaria ameaçado!, precisei conviver, por pouco tempo felizmente, com a loucura da contramão social que nos era apresentada. Enquanto a promoção de incentivo à leitura tornava-se uma preocupação mundial, o Piauí perdia a oportunidade de envolver-se em tão bela viagem cultural. Surrealista era o raciocínio de nossas autoridades. Niilista, a decisão – tão precipitadinha! – tomada.
Passado o susto, o alívio. Não fui demitido, nem os candidatos “nivelados por baixo” – é assim que se diz nos corredores dos cursinhos. Passado o susto, a sensatez. Enquanto houver vestibular, haverá uma desculpa para ler – e escrever! Quantas grandes paixões não nasceram do acaso! Feito o menino pré-vestibulando obrigado a ler Fernando Pessoa... Nunca mais o abandonou. Carregou na bagagem por toda a vida o poeta português e todos os seus heterônimos que pôde conhecer e desvendar.
Do que pensas que eu sou
Serei talvez a ilusão do poeta
A doce lua branca que encanta o mar
Um mero símbolo de possibilidades tão fúteis
Não há graça ou desgraça em tudo isso
Sou mortal
E como tal
Posso brincar de morte
Que sorte
Não é ela a mulher do capuz
Nem é dela a severa foice
Eu estou encapuzado
Severo sou eu
O contador de histórias
Que tanto mal faz aos seus alunos
Por que se deixar levar
Acreditar nas possibilidades do sonho
Como se possível fosse – sonhar
E desejar
E desde já
Encarar homem deus e diabo
Diacho
Que seja inferno
Inverno ou verão
Que seja
Que eu seja
Pobre triste amargo lúcido
Lúcifer
Ir-se
Se
Tu fosses eu
Eu
Que já fui tantas vezes
Tu.
Jeosá nem mais sabia o que fazer. Ou mesmo o que fizera. Seria uma maldição? Não mais os olhos castanhos encarariam os olhos castanhos? Como é possível – terror! – enxergar cabelos, pescoço, mãos, braços, tórax e não descobrir um reflexo sequer do próprio rosto?
Fazia dois dias desde a última vez em que considerara a vida um maravilhoso passeio de aqui e acolá. Chegara a cogitar a possibilidade de um desvio da luz – um grau que fosse! – provocando caos em todos os espelhos do mundo. Bobagem. Se todos os rostos refletidos ali. Se apenas o seu desaparecera feito a sombra traquinas de Peter Pan.
O mais curioso é que os outros, cujos rostos enxergava muito bem, também enxergavam o seu rosto. Sabia disso porque a mãe preparou-lhe o café praguejando como todos os dias de todos os anos. Porque no ônibus ninguém colaborou para que descesse tranqüilamente. Porque na escola os alunos não interromperam a bagunça e a coordenadora cobrou as notas da prova de literatura. Mas então o quê?
Alimentava-se numa boa. Escovava os dentes sem nenhum problema. Penteava os cabelos. Ajeitava as sobrancelhas. Coçava o nariz. Tudo como antigamente. Desde que não houvesse uma superfície refletora por perto lhe anunciando o vazio. A escuridão. Chegara a exagerar nas caretas diante do espelho. Abria e fechava a boca. Dentes expostos. Língua nos lábios e no céu da boca e nos próprios dentes. Mas a imagem não se comovia. Insistia em permanecer ausente.
O corpo do professor foi encontrado às dez da manhã. Sobre a cama uma espingarda de canos duplos paralelos. De terno preto e gravata preta e sapatos pretos arrumara-se para o suicídio. Com o disparo, a cabeça explodiu. Estourou. Expluiu. A mãe não conteve o desespero: onde foi parar o rosto de Jeosá?
Rodolfo agarrara-se aos braços da cadeira. As pernas entrelaçadas às pernas da cadeira. Depois de duas horas ainda não acreditava nos últimos acontecimentos. Em alguns momentos de rara precipitação chegara a agredir o próprio corpo na esperança de despertar daquele sonho imbecil.
Logo ele que nunca pensara em voar. De aviões ou qualquer maluquice de inventar de brincar de pássaro queria mesmo era distância. Agora estava ali. Desde o início da madrugada tentando convencer os sentidos da existência de uma força gravitacional que oprimia todos os corpos menos o seu corpo.
Ainda bem que não se desfizera daquela cadeira velha. A velha cadeira de seu pai. Pesada. Tal qual a mão que arremessava correias de couro contra o seu couro de menino. Cogitara atear-lhe fogo. Quando o velho morreu, a sepultura envolveu-lhe o corpo, mas era naquele móvel onde o fantasma repousaria. Não imaginava sentar ali um dia. No colo de seu pai. Muito menos lhe segurar os braços com tanta força. Os braços fortes de seu pai.
O que estaria acontecendo de fato? Que força mística mítica sobrenatural provocaria tamanha confusão? Mais parecia um daqueles prisioneiros norte-americanos naquelas matérias sensacionalistas sobre o corredor da morte. Meu deus. Quando a alavanca seria acionada? Quando a descarga elétrica acabaria com a agonia?
Não havia agonia. Mas isso Rodolfo não sabia. Não sabia também que nada mais poderia atingi-lo. Rodolfo estava morto. O fantasma era ele. Prisioneiro da cadeira de seu pai. Precisara morrer para enfrentá-la. Mas ao enfrentá-la sentira-se mais vivo do que quando estivera vivo. Assustado. Mas vivo. Confuso. Mas vivo. Se abrisse os olhos, enxergaria as velas. Certamente, não desgrudaria os olhos do caixão. Havia velas em torno de um caixão. E em torno das velas e do caixão havia pessoas. E em torno das pessoas a sombra onipresente do pai.